Uma das instruções para a prática da meditação é "apenas sentar".
Parece tão simples, tão fácil. Então, praticar meditação é só isso? Só sentar?
Sim.
Mas então, qual a dificuldade?
É extremamente difícil você "apenas sentar". Tente. Em sua mente, um milhão de pensamentos irão passar em uma corrente, um atrás do outro. Coisas a fazer, contas a pagar, coisas que deveriam ter sido feitas, lembranças... a mente fica pulando do passado para o futuro o tempo todo, e não se fixa no presente.
Conforme os pensamentos vêm à mente, devemos abandoná-los, deixá-los ir embora sem qualquer apego.
Em determinado momento, a mente se cansa e então conseguimos "apenas sentar", por breves segundos.
Mas se sentamos com um objetivo, nem que seja "alcançar o Samadhi", não há êxito. O correto é nada desejar. Simplesmente sentar.
Nossa mente está treinada para funcionar 24 horas por dia. Quando repentinamente paramos, ela tenta de toda forma nos tirar deste estado contemplativo, ela quer agito, quer barulho, quer ação.
Mas quem quer agito, barulho, ação? O ego. Cada pensamento que vem à mente é um ego querendo respirar. Se "apenas sentamos", não estamos alimentando os egos e, aos poucos, lentamente, eles vão perdendo força, até desaparecerem completamente. É claro que os egos não querem morrer, por isso a mente vai tentar de toda forma sair do estado contemplativo.
Por isso, é necessário muita prática e muito esforço para conseguirmos "apenas sentar".
Mas quando conseguimos ficar em estado meditativo por uma grande sucessão de pequenos períodos, então abre-se a possibilidade de termos insights e experiências diretas da iluminação (kenshôs). Aí, o mundo muda e a iluminação torna-se possível.
Sobre um zafu
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Samadhi
Há alguns dias perguntei para uma praticante amiga minha sobre suas experiências com meditação, ou seja, como estava seu Samadhi. Ela me contou que nunca teve um Samadhi.
No momento preferi silenciar. Mas eu deveria ter dito: "com certeza absoluta, já teve sim".
O Samadhi é o estado natural da mente. É como víamos o mundo até perto dos quatro ou cinco anos de idade. Apenas sentíamos, percebíamos as coisas, sem rótulos, sem julgamentos. Mente receptiva. Apenas estar aqui e agora, com toda a plenitude e consciência. Nada mágico, apenas natural, estávamos simplesmente aprendendo.
Só depois dos quatro ou cinco anos é que passamos a pensar em palavras e construir personalidades para cada desejo, para cada apego, ou seja, passamos a criar nossos egos, camada após camada. Quando nos tornamos "adultos", estamos totalmente obscurecido debaixo de centenas ou milhares de camadas de egos, como cascas de uma cebola. Quanto mais apego a elas, mais sofremos.
Quando iniciamos a prática da meditação, pode demorar alguns meses ou até alguns anos, mas logo sentiremos aquela sensação de paz e tranquilidade profundas que antecedem o Samadhi e, repentinamente, temos a experiência do Samadhi. Nesse momento lembramos imediatamente de nossa infância, de como pensávamos quando éramos crianças. Percebemos então que já tivemos esta experiência antes.
Após alguns anos de prática, nos tornamos "proprietários" do Samadhi. Podemos entrar neste estado natural da mente quando bem entendermos, conscientemente, a qualquer momento: trabalhando, dirigindo, comendo, lavando a louça, conversando com as pessoas... tanto faz se você está no meio de um trânsito infernal ou às margens de uma cachoeira no meio do mato, o Samadhi é o mesmo. O centro está dentro de você, e não fora.
No momento preferi silenciar. Mas eu deveria ter dito: "com certeza absoluta, já teve sim".
O Samadhi é o estado natural da mente. É como víamos o mundo até perto dos quatro ou cinco anos de idade. Apenas sentíamos, percebíamos as coisas, sem rótulos, sem julgamentos. Mente receptiva. Apenas estar aqui e agora, com toda a plenitude e consciência. Nada mágico, apenas natural, estávamos simplesmente aprendendo.
Só depois dos quatro ou cinco anos é que passamos a pensar em palavras e construir personalidades para cada desejo, para cada apego, ou seja, passamos a criar nossos egos, camada após camada. Quando nos tornamos "adultos", estamos totalmente obscurecido debaixo de centenas ou milhares de camadas de egos, como cascas de uma cebola. Quanto mais apego a elas, mais sofremos.
Quando iniciamos a prática da meditação, pode demorar alguns meses ou até alguns anos, mas logo sentiremos aquela sensação de paz e tranquilidade profundas que antecedem o Samadhi e, repentinamente, temos a experiência do Samadhi. Nesse momento lembramos imediatamente de nossa infância, de como pensávamos quando éramos crianças. Percebemos então que já tivemos esta experiência antes.
Após alguns anos de prática, nos tornamos "proprietários" do Samadhi. Podemos entrar neste estado natural da mente quando bem entendermos, conscientemente, a qualquer momento: trabalhando, dirigindo, comendo, lavando a louça, conversando com as pessoas... tanto faz se você está no meio de um trânsito infernal ou às margens de uma cachoeira no meio do mato, o Samadhi é o mesmo. O centro está dentro de você, e não fora.
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Respiração Consciente
Independente de religião ou de linhagem, existem incontáveis técnicas de meditação que dão especial enfoque à RESPIRAÇÃO. Algumas dessas técnicas baseiam-se na visualização do ar puro entrando pelas nossas narinas, descendo até o pulmão, purificando nosso corpo e devolvendo ao meio ambiente o ar impuro.
Se imprimíssemos todas as técnicas de respiração conhecidas, certamente precisaríamos de toneladas de papel.
Mas a melhor técnica de respiração que conheço é ENTRAR EM SAMADHI, pois automaticamente você corrige sua postura e respira corretamente, sem qualquer artifício. Se você está contemplando as montanhas distantes, você está respirando as montanhas. Se está observando o mar, está respirando o mar. Assim, você se torna montanha, você se torna mar, não há diferenças.
Se imprimíssemos todas as técnicas de respiração conhecidas, certamente precisaríamos de toneladas de papel.
Mas a melhor técnica de respiração que conheço é ENTRAR EM SAMADHI, pois automaticamente você corrige sua postura e respira corretamente, sem qualquer artifício. Se você está contemplando as montanhas distantes, você está respirando as montanhas. Se está observando o mar, está respirando o mar. Assim, você se torna montanha, você se torna mar, não há diferenças.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
A beleza a cada momento
O zen budismo muitas vezes é rotulado como uma religião sem cor, sem vida, sem beleza, com uma prática austera, longos períodos de meditação de frente para uma parede branca, longos e cansativos sesshins, muito silêncio. Uma coisa sombria.
Isso está muito longe da verdade. O zen é uma filosofia lindíssima, cheia de vida, de beleza, de alegrias e de fartos sorrisos. Basta procurar no Google Images por 'praticante zen' e você verá centenas de rostos sorridentes.
Na verdade, quanto mais o praticante se entrega à prática, mais beleza ele passa a ver a seu redor. A beleza que sempre esteve lá, mas que agora ele passa a perceber. Todo o final de tarde temos um maravilhoso espetáculo muito colorido, com o entardecer escondendo o sol atrás de nuvens douradas e púrpuras. Isso é maravilhoso, acontece todos os dias, mas se não percebermos o ocaso, como poderemos apreciá-lo?
Da mesma forma, uma simples fatia de pão com manteiga e mel nos traz um indizível prazer. É uma estupenda delícia! Porém, como na maioria das vezes estamos sonâmbulos ao nos alimentar, não percebemos as nuances dos sabores deste tão simples e tão apetitoso prato. Somente se estivermos plenamente despertos durante as refeições perceberemos todos os sabores, as texturas, a temperatura da comida. E estaremos também conscientes do fato que milhares de pessoas contribuíram para que você tenha esta refeição. E como desejar ter toda a comida só para si, sabendo que houve o esforço de tantas pessoas, e que esta comida é tão boa? Não, você vai querer dividir a sua refeição com outras pessoas, outros seres, e isso torna cada refeição absolutamente maravilhosa e única.
Fazemos uma série de coisas 'chatas' de forma mecânica em nosso dia-a-dia. Escovar os dentes, tomar banho, trocar de roupa... todas essas tarefas podem esconder belezas surpreendentes que só podem ser vistas com a plena atenção no momento presente.
Sim, a prática zen é lindíssima, maravilhosa, cheia de beleza, ternura, bondade e compaixão. Cada segundo que olhamos para uma paisagem é um raríssimo quadro que, se pintado, poderia valer milhões de dólares, pois no segundo seguinte já não existiria mais. O momento presente é a coisa mais volátil e perfeita que existe. Apreciar cada momento é viver com sabedoria e beleza, e vivendo assim somos absolutamente felizes, riquíssimos e nos tornamos potencialmente úteis para toda a humanidade.
Que todos se beneficiem.
Isso está muito longe da verdade. O zen é uma filosofia lindíssima, cheia de vida, de beleza, de alegrias e de fartos sorrisos. Basta procurar no Google Images por 'praticante zen' e você verá centenas de rostos sorridentes.
Na verdade, quanto mais o praticante se entrega à prática, mais beleza ele passa a ver a seu redor. A beleza que sempre esteve lá, mas que agora ele passa a perceber. Todo o final de tarde temos um maravilhoso espetáculo muito colorido, com o entardecer escondendo o sol atrás de nuvens douradas e púrpuras. Isso é maravilhoso, acontece todos os dias, mas se não percebermos o ocaso, como poderemos apreciá-lo?
Da mesma forma, uma simples fatia de pão com manteiga e mel nos traz um indizível prazer. É uma estupenda delícia! Porém, como na maioria das vezes estamos sonâmbulos ao nos alimentar, não percebemos as nuances dos sabores deste tão simples e tão apetitoso prato. Somente se estivermos plenamente despertos durante as refeições perceberemos todos os sabores, as texturas, a temperatura da comida. E estaremos também conscientes do fato que milhares de pessoas contribuíram para que você tenha esta refeição. E como desejar ter toda a comida só para si, sabendo que houve o esforço de tantas pessoas, e que esta comida é tão boa? Não, você vai querer dividir a sua refeição com outras pessoas, outros seres, e isso torna cada refeição absolutamente maravilhosa e única.
Fazemos uma série de coisas 'chatas' de forma mecânica em nosso dia-a-dia. Escovar os dentes, tomar banho, trocar de roupa... todas essas tarefas podem esconder belezas surpreendentes que só podem ser vistas com a plena atenção no momento presente.
Sim, a prática zen é lindíssima, maravilhosa, cheia de beleza, ternura, bondade e compaixão. Cada segundo que olhamos para uma paisagem é um raríssimo quadro que, se pintado, poderia valer milhões de dólares, pois no segundo seguinte já não existiria mais. O momento presente é a coisa mais volátil e perfeita que existe. Apreciar cada momento é viver com sabedoria e beleza, e vivendo assim somos absolutamente felizes, riquíssimos e nos tornamos potencialmente úteis para toda a humanidade.
Que todos se beneficiem.
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
A rede de relacionamentos
Hoje, durante minha meditação noturna, tive um insight bem interessante.
Os nossos egos se associam com os egos das outras pessoas. É fascinante perceber e estudar estas ligações, e nosso convívio familiar é um prato cheio para esta prática.
Quando estamos conscientes, conseguimos perceber com clareza as ligações dos egos entre as pessoas. Essas ligações são complexas e chegam a criar uma espécie de "teia", uma verdadeira rede. Quando não estamos conscientes (ou seja, 99% de nosso dia), nossos egos se associam a esta teia e acabamos também enredados. Fomos fisgados, estamos presos na teia. E aí começam todos os problemas, originam-se discussões, agressões e sofrimentos de toda sorte.
Em japonês, existe uma palavra chamada TODATSU, que é uma abreviatura ao termo TOTAL DATSURAKU. O termo quer dizer algo como "todo o corpo completamente limpo e renovado", ou "a mente pura que vai além". O termo é associado à imagem de uma carpa que escapa de uma rede. Pois foi exatamente esta imagem que me veio à mente ao contemplar a miríade de associações egóicas existentes em nossa família. Uma vez que estou consciente dessas conexões egóicas, posso me tornar livre delas, não ser atingido, não ser preso na teia, e escapar desta rede como se ela não existisse, exatamente como a carpa caracterizada na palavra TODATSU.
Portanto, quando você perceber que está sendo "enredado" em uma discussão em sua família, em seu grupo de trabalho ou com seus amigos, procure tomar consciência dos egos envolvidos, das associações egóicas, da rede que se abre sobre sua cabeça. Tome a necessária distância para agir com clareza e escapar desta rede, neutralizando-a e, se possível, usando esta oportunidade para gerar benefícios às pessoas envolvidas.
Os nossos egos se associam com os egos das outras pessoas. É fascinante perceber e estudar estas ligações, e nosso convívio familiar é um prato cheio para esta prática.
Quando estamos conscientes, conseguimos perceber com clareza as ligações dos egos entre as pessoas. Essas ligações são complexas e chegam a criar uma espécie de "teia", uma verdadeira rede. Quando não estamos conscientes (ou seja, 99% de nosso dia), nossos egos se associam a esta teia e acabamos também enredados. Fomos fisgados, estamos presos na teia. E aí começam todos os problemas, originam-se discussões, agressões e sofrimentos de toda sorte.
Em japonês, existe uma palavra chamada TODATSU, que é uma abreviatura ao termo TOTAL DATSURAKU. O termo quer dizer algo como "todo o corpo completamente limpo e renovado", ou "a mente pura que vai além". O termo é associado à imagem de uma carpa que escapa de uma rede. Pois foi exatamente esta imagem que me veio à mente ao contemplar a miríade de associações egóicas existentes em nossa família. Uma vez que estou consciente dessas conexões egóicas, posso me tornar livre delas, não ser atingido, não ser preso na teia, e escapar desta rede como se ela não existisse, exatamente como a carpa caracterizada na palavra TODATSU.
Portanto, quando você perceber que está sendo "enredado" em uma discussão em sua família, em seu grupo de trabalho ou com seus amigos, procure tomar consciência dos egos envolvidos, das associações egóicas, da rede que se abre sobre sua cabeça. Tome a necessária distância para agir com clareza e escapar desta rede, neutralizando-a e, se possível, usando esta oportunidade para gerar benefícios às pessoas envolvidas.
Meditação Expressa: Pequenos Momentos Iluminados no dia-a-dia
Independente de qualquer religião ou filosofia, a meditação traz inúmeros benefícios para quem a pratica, estendendo-se para todas as pessoas próximas como ondas em um lago.
Ao praticar meditação por 40 minutos, todos os dias, em algumas semanas ou meses já começamos a perceber em nós mesmos algumas mudanças. As pessoas ao nosso redor também percebem e passam a comentar: "Você está mais calmo", "Você está mais feliz", "Há um brilho em seus olhos" e coisas assim.
Com a prática constante, em poucas sessões (talvez já nas primeiras) conseguimos experimentar a "mente silenciosa": por alguns instantes, a torrente de pensamentos em nosso cérebro cessa e então surge um silêncio, um momento de profunda paz.
Um pouco mais adiante, experimentamos o Samadhi, que é um momento (cerca de 5 segundos) no qual estamos plenamente presentes no aqui-agora e conscientes. Não há passado nem futuro, apenas o momento presente. Aproveitando o ensejo, certa vez imaginei como seria um RELÓGIO DE BUDA: um único ponteiro com uma única marcação: o momento presente. Pense nisso!
Com alguns meses de prática, podemos ter alguns insights, que são momentos rápidos nos quais vislumbramos a realidade, percebemos a verdadeira natureza de alguma coisa (uma flor, uma árvore, uma nuvem, um inseto, qualquer coisa) ou simplesmente descobrimos a solução para um problema. É algo como fazer 'cair a ficha'. Em um insight, geralmente pensamos: "Ah, então é isso!". Nos primeiros insights, é comum ficarmos muito sensíveis e até desatarmos em um choro profundo e incontrolável. Depois esses momentos tornam-se mais "normais", pois passamos a nos acostumar com eles.
Talvez após alguns anos de prática, o praticante tem um Kenshô, que é a visualização direta da iluminação, um estado plenamente iluminado, que dura de 20 a 30 segundos, e de indescritível bem-estar, no qual desaparece a dissociação eu-outro, ou sujeito-objeto. Tornamo-nos plenamente conscientes da unidade e interdependência de todas as coisas, a mente está sob total e absoluto controle e sentimos pela primeira vez o que é realmente a "felicidade". Entendemos o significado da palavra "interser": Passamos a SER com todos os demais seres.Todas as coisas são perfeitas como são, é um momento no qual estamos plenamente acordados e conscientes, vivendo em nossa verdadeira natureza, é a experiência do vazio, ou seja, a ausência absoluta de qualquer ego. Ao termos um Kenshô, simplesmente sabemos que a iluminação é realmente possível, pois acabamos de experimentá-la.
Após muitos e muitos anos de prática e depois de sucessivos kenshôs, então o praticante pode repentinamente despertar sua verdadeira natureza. É o Satori, a total iluminação. A partir deste momento, o praticante está totalmente livre, plenamente consciente, na mais absoluta felicidade. É o Nirvana.
Voltando ao ponto de partida, para quem está iniciando na prática, ou mesmo para quem já tem uma certa experiência, é fundamental trazermos o Samadhi para nosso dia-a-dia. Particularmente, eu programei meu celular para tocar um sinal a cada hora. Escolhi o som de um relógio-cuco. Quando o celular toca o 'cuco', qualquer pessoa pode achar até engraçado, é um som tradicional informando a batida de um relógio, uma simples mudança de hora, mas para mim este som tem um outro significado: É hora de parar um pouco, corrigir a postura, alinhar a coluna, respirar profundamente e instalar rapidamente um pequeno Samadhi. Todo o processo não demora mais de 30 segundos e é fundamental para tomar consciência de onde estou, do que estou fazendo e das pessoas que estão à minha volta. Meu serviço rende muito mais, fica mais organizado e trabalho melhor com as prioridades. Ao final do dia não estou tão desgastado, tive vários momentos 'iluminados' e conscientes durante o dia e aproveitei melhor as oportunidades. E até pelo fato de ter corrigido minha postura várias vezes durante o dia, não sinto mais tantas dores nas costas.
À noite, a meditação é mais fácil, mais profunda, mais intensa. Pego no sono mais rapidamente e meu sono é mais profundo, mais relaxante, mais restaurador. Tenho dormido menos: cerca de 5 horas são suficientes.
Tudo isso deve-se à prática de pequenos momentos de meditação durante o dia. Eu chamaria de 'meditação expressa', ao melhor estilo ocidental. Não custa nada, funciona, é prazerosa e altamente benéfica.
Experimente você também!
Ao praticar meditação por 40 minutos, todos os dias, em algumas semanas ou meses já começamos a perceber em nós mesmos algumas mudanças. As pessoas ao nosso redor também percebem e passam a comentar: "Você está mais calmo", "Você está mais feliz", "Há um brilho em seus olhos" e coisas assim.
Com a prática constante, em poucas sessões (talvez já nas primeiras) conseguimos experimentar a "mente silenciosa": por alguns instantes, a torrente de pensamentos em nosso cérebro cessa e então surge um silêncio, um momento de profunda paz.
Um pouco mais adiante, experimentamos o Samadhi, que é um momento (cerca de 5 segundos) no qual estamos plenamente presentes no aqui-agora e conscientes. Não há passado nem futuro, apenas o momento presente. Aproveitando o ensejo, certa vez imaginei como seria um RELÓGIO DE BUDA: um único ponteiro com uma única marcação: o momento presente. Pense nisso!
Com alguns meses de prática, podemos ter alguns insights, que são momentos rápidos nos quais vislumbramos a realidade, percebemos a verdadeira natureza de alguma coisa (uma flor, uma árvore, uma nuvem, um inseto, qualquer coisa) ou simplesmente descobrimos a solução para um problema. É algo como fazer 'cair a ficha'. Em um insight, geralmente pensamos: "Ah, então é isso!". Nos primeiros insights, é comum ficarmos muito sensíveis e até desatarmos em um choro profundo e incontrolável. Depois esses momentos tornam-se mais "normais", pois passamos a nos acostumar com eles.
Talvez após alguns anos de prática, o praticante tem um Kenshô, que é a visualização direta da iluminação, um estado plenamente iluminado, que dura de 20 a 30 segundos, e de indescritível bem-estar, no qual desaparece a dissociação eu-outro, ou sujeito-objeto. Tornamo-nos plenamente conscientes da unidade e interdependência de todas as coisas, a mente está sob total e absoluto controle e sentimos pela primeira vez o que é realmente a "felicidade". Entendemos o significado da palavra "interser": Passamos a SER com todos os demais seres.Todas as coisas são perfeitas como são, é um momento no qual estamos plenamente acordados e conscientes, vivendo em nossa verdadeira natureza, é a experiência do vazio, ou seja, a ausência absoluta de qualquer ego. Ao termos um Kenshô, simplesmente sabemos que a iluminação é realmente possível, pois acabamos de experimentá-la.
Após muitos e muitos anos de prática e depois de sucessivos kenshôs, então o praticante pode repentinamente despertar sua verdadeira natureza. É o Satori, a total iluminação. A partir deste momento, o praticante está totalmente livre, plenamente consciente, na mais absoluta felicidade. É o Nirvana.
Voltando ao ponto de partida, para quem está iniciando na prática, ou mesmo para quem já tem uma certa experiência, é fundamental trazermos o Samadhi para nosso dia-a-dia. Particularmente, eu programei meu celular para tocar um sinal a cada hora. Escolhi o som de um relógio-cuco. Quando o celular toca o 'cuco', qualquer pessoa pode achar até engraçado, é um som tradicional informando a batida de um relógio, uma simples mudança de hora, mas para mim este som tem um outro significado: É hora de parar um pouco, corrigir a postura, alinhar a coluna, respirar profundamente e instalar rapidamente um pequeno Samadhi. Todo o processo não demora mais de 30 segundos e é fundamental para tomar consciência de onde estou, do que estou fazendo e das pessoas que estão à minha volta. Meu serviço rende muito mais, fica mais organizado e trabalho melhor com as prioridades. Ao final do dia não estou tão desgastado, tive vários momentos 'iluminados' e conscientes durante o dia e aproveitei melhor as oportunidades. E até pelo fato de ter corrigido minha postura várias vezes durante o dia, não sinto mais tantas dores nas costas.
À noite, a meditação é mais fácil, mais profunda, mais intensa. Pego no sono mais rapidamente e meu sono é mais profundo, mais relaxante, mais restaurador. Tenho dormido menos: cerca de 5 horas são suficientes.
Tudo isso deve-se à prática de pequenos momentos de meditação durante o dia. Eu chamaria de 'meditação expressa', ao melhor estilo ocidental. Não custa nada, funciona, é prazerosa e altamente benéfica.
Experimente você também!
terça-feira, 18 de setembro de 2012
O EU é ilusão
Inumeráveis textos da literatura budista (e de outras religiões) repetem incansavelmente que o EU É ILUSÃO. Mas enquanto não compreendermos isso, estas são apenas belas palavras que podem ser impressas, emolduradas e penduradas na parede.
Precisamos compreender profundamente o verdadeiro sentido desta afirmação. Esse é o primeiro passo para entendermos e aceitarmos nossa condição atual, a fim de nos libertarmos das amarras que encobrem nossa verdadeira natureza como as cascas de uma cebola.
Gautama Buda alcançou a mais profunda compreensão da realidade e afirmou: "Maravilha das maravilhas. Todos os seres são completos e perfeitos, dotados de virtude e sabedoria, mas os pensamentos ilusórios impedem que percebam isso". Este foi o primeiro grande ensinamento de Shakyamuni Buda. Não é difícil compreender esta verdade. Basta seguir esta linha de pensamentos:
1) Nossa personalidade é formada por inúmeros eus, ou 'egos'. A cada momento, um ego assume o controle do barco e direciona nossas energias para alcançar seu determinado e próprio objetivo. A própria palavra 'personalidade' deriva do latim 'persona', que quer dizer 'máscara', ou seja, nossa personalidade nada mais é do que uma máscara que usamos temporariamente para atuarmos na sociedade. A personalidade muda o tempo todo. Quando um ego romântico assume o controle, nos tornamos românticos. Quando é um ego raivoso que está no comando, nos tornamos raivosos, e assim por diante. Compreendendo isso, fica fácil concluir que na verdade não temos uma personalidade real e única, mas CADA EGO que nos habita tem sua própria personalidade.
2) O ego não existe por si só. Se você meditar profundamente sobre um determinado ego, vai perceber que ele se desvanece como uma nuvem. Ele não possui essência, não tem nada de concreto, é apenas uma associação de pensamentos que adquire uma personalidade própria. É como um fluir de pensamentos e emoções que se enredam e assumem a ilusão de ser alguma coisa real. Todos os egos são apenas associações de pensamento, assumem uma personalidade e quando estão no comando temos tanta certeza de sua existência que pensamos: este sou eu, eu sou assim, eu quero isso, eu não quero aquilo, é minha opinião. Porém, nada mais falso, são apenas pensamentos agrupados e associados que assumem vida própria e por alguns momentos acabam por assumir o comando.
3) Todo ego tem origem em algum tipo de apego. Existem três tipos de apego, os três venenos: aversão, desejo e ilusão. Ao passar por uma loja, vemos um objeto qualquer e sentimos imensa vontade de ter aquele objeto (roupa, sapato, livro, o que for). Quando saímos do trabalho, ficamos presos no trânsito e isso nos torna nervosos, queremos sumir dali, buzinamos para que o carro da frente ande mais rápido, queremos nos mover e não podemos, simplesmente não queremos ficar ali presos no trânsito. Quando alguém nos contraria, retrucamos: com quem você acha que está falando? Sabe quem eu sou? Ponha-se no seu lugar! Estes são apenas alguns exemplos para mostrar como agem os nossos egos: o desejo pelo que não temos, a aversão pelo que não queremos e a ilusão de sermos alguém especial, melhor ou pior do que as outras pessoas.
4) Todo apego (portanto todo ego) leva à insatisfação e consequentemente ao sofrimento. É impossível saciar um ego. Não há como um ego alcançar a satisfação plena, ele sempre vai querer mais. Após uma breve saciedade, poderá ficar latente por algum tempo, mas depois retornará querendo mais. Quando um ego está parcialmente saciado, dá lugar a outro ego, portanto vivemos ininterruptamente em busca da satisfação e saciedade, como burros correndo atrás de uma cenoura. Um objetivo que jamais poderá ser alcançado. O ego pode proporcionar momentos de prazer e alegria, mas não pode nos prover da mais genuína felicidade, pois isso vai contra sua própria natureza. A natureza do ego é o desejo, fundamentado na insatisfação. Logicamente, não é possível encontrar a felicidade com a satisfação do ego: teremos apenas um momento de prazer e em seguida estaremos novamente buscando a satisfação de outro ego, em um círculo vicioso infinito. Como o ego não tem qualquer fundamento ético ou moral, a satisfação de determinados desejos irá fatalmente criar sofrimento para si e/ou para outras pessoas. Palavras ditas com a intenção de satisfazer um ego poderão ferir profundamente a outrem.
5) Lutar contra o ego é uma guerra perdida. Isso pode ser explicado matematicamente: um praticante de meditação sabe que consegue ficar plenamente desperto somente alguns momentos durante o dia. O resto do tempo está adormecido e sendo jogado de ego para ego como um barco à deriva. Os egos se sucedem como elos de uma corrente interminável. Os raros momentos de samadhi advindos da meditação interrompem brevemente essa corrente. Nesses momentos, estamos lúcidos e, apesar de ainda percebermos a presença do ego, conseguimos agir sem sua influência. Digamos que um praticante consiga ficar desperto por 1% do tempo do dia, ou seja, por uns 10 minutos. Acredite, isso já é bastante coisa. Então temos que por 10 minutos estamos conscientes e pelos 950 minutos restantes (levando em consideração um dia útil de 16 horas) ficamos à deriva e à mercê de nossos egos. Não precisa ser nenhum gênio para perceber que lutar contra o ego é uma guerra perdida. Ele tem muito mais força, está no comando por muito mais tempo, é muito mais esperto e tem a habilidade de criar artimanhas que nos vencem facilmente. Uma das artimanhas é nos provocar SONO durante a meditação, ou ficar o tempo todo nos lembrando de coisas a fazer, como uma agenda eletrônica irritante ligada em 220 volts. Portanto, qualquer luta que empreendermos contra o ego estará fadada ao fracasso. Não é esse o caminho, ele não levará a nada e você estará correndo sérios riscos de ficar neurótico, obsessivo, depressivo e até com tendências suicidas.
6) Egos não alimentados enfraquecem e morrem sozinhos. Esta foi uma das grandes constatações de Gautama Buda. Em cima dessa constatação foram elaborados os preceitos budistas e o nobre caminho óctuplo. Se tivermos um modo de vida correto, estaremos deixando de alimentar o ego, ele perderá forças e aos poucos iremos libertando energia para a nossa verdadeira consciência, nossa natureza búdica. Cada preceito por si só tem o poder de liberar enormes quantidades de energia. Por exemplo, 'não mentir, mas defender a verdade'. Gastamos energia mental para fantasiarmos uma mentira e depois para lembrar e reafirmar a mesma quantas vezes for necessário. Se tivermos o hábito de mentir, acabamos por perder uma imensa quantidade de energia diariamente, simplesmente para sustentar fatos que não aconteceram ou pelo menos que não aconteceram DAQUELE jeito. Porém, se optarmos por falar sempre a verdade, não precisaremos nos preocupar em lembrar qual mentira contamos. Basta falar a verdade. Pronto, um montão de energia liberada para nossa verdadeira natureza! E o mesmo ocorre para os demais 15 preceitos observados por todos os praticantes leigos. Se conseguirmos observar todos os 16 preceitos o tempo todo, veremos aos poucos que nossa mente se torna mais clara, mais calma, centrada, conseguimos ver as coisas com mais clareza e não ficamos 'viajando' tanto quanto antes. É um processo lento mas que dá muito resultado.
7) Atrás das nuvens brilha o sol. Se os egos são como nuvens de pensamento que envolvem nossa natureza búdica como cascas ao redor de uma cebola, ao enfraquecermos o ego essas nuvens se dissipam e aos poucos irá brilhar nossa natureza como o sol brilhando após um dia nublado. Se praticarmos a meditação diligentemente, se procurarmos manter nossa mente alerta durante o dia e se observarmos os preceitos, veremos um progresso contínuo em nossa prática. Nosso samadhi vai ficando cada vez mais profundo, por mais tempo e por mais vezes durante o dia. Isso vai preparando o terreno para o próximo passo: o Kenshô.
8) Kenshô: geralmente ocorre durante longos retiros, pois digamos que de certa forma exige determinadas condições para acontecer. Um kenshô é uma experiência direta da iluminação. Dura de 20 a 30 segundos, e nesse período desaparece a dicotomia sujeito-objeto. Tudo é uma coisa só, tudo está interligado, tudo é perfeito como é, cada átomo é necessário e está no local correto, não há passado nem futuro, somente o momento presente. Não há distinção entre eu-outro. Conteúdo é forma, forma é conteúdo. A mais absoluta e plena paz, uma indescritível sensação de liberdade, pois nesses momentos estamos livres do ego. A mente está dominada e quieta. Esquecemos de nós mesmos e vivemos por alguns momentos em nossa natureza búdica. A experiência do kenshô é libertadora e muda completamente uma pessoa. O mundo muda e a iluminação torna-se possível. O kenshô geralmente só acontece após longos períodos de meditação, quando o praticante está exausto e literalmente desiste de alcançar a iluminação. É por isso que os sesshins são tão severos, a intenção do sesshin é gerar esta crise artificial, esta exaustão, para que o kenshô possa acontecer. Mas o praticante que realiza um kenshô passa a viver um outro dilema: Ele sabe que a iluminação é possível, já experimentou a iluminação, e mesmo assim continua preso nas tramas do Samsara, à mercê do ego, jogado de emoção em emoção como uma folha na correnteza. É complicado. Ele precisa se libertar o mais rápido possível. Após o primeiro kenshô tem início um período conhecido como Noite Escura. Na verdade todos nós vivemos como se estivéssemos sonâmbulos. Aquele que realiza o kenshô toma consciência disso e consegue perceber a escuridão em que está inserido.
9) Satori: Quando o praticante persiste na prática e se dedica com todas as forças para alcançar a iluminação, participando do maior número possível de sesshins e por vezes fazendo retiros solitários por conta própria, vai tendo paulatinamente mais experiências de kenshôs, até que o kenshô passa a ser diário, como os samadhis. O praticante tem continuamente insights fantásticos, visões e experiências místicas. Começam a se desenvolver os siddhis (certos 'poderes' considerados 'sobrenaturais'). Nesse estágio, a qualquer momento um determinado estímulo pode finalmente levar o praticante ao SATORI, que é a iluminação propriamente dita. Existem vários níveis de iluminação. Há quem afirme que aquele que realizou um kenshô já alcançou uma iluminação, mas particularmente considero esta afirmativa muito perigosa, pois quando realizamos o primeiro kenshô ainda estamos totalmente à mercê do ego. Somente após o despertar da natureza búdica - satori - é que vencemos o ego. O ego se desvanece, desaparece. Passamos a usar a personalidade quando e como desejarmos, sem sermos afetados por ela. Não há mais apego. Sabemos que a personalidade utilizada naquele momento não somos nós. É o Nirvana, nenhum vento nos leva. É como o mecânico que, após usar uma ferramenta, simplesmente a abandona pois não precisa mais dela.
Concluindo, quando tomamos consciência de que o EU É ILUSÃO, tem início um longo processo em busca de nossa verdadeira natureza. Após dispersar as nuvens do ego que encobrem nossa natureza, ela pode brilhar com toda a sua intensidade. Eliminados os apegos que nos levam ao sofrimento, o que resta é a mais profunda paz e felicidade. A personalidade deve ser apenas uma ferramenta que utilizamos para conviver em sociedade, mas precisamos ter consciência de que ela não representa o que somos, é apenas uma roupa que precisamos vestir de acordo com cada situação. E por fim, se o ego consome quase a totalidade de nossa energia e mesmo assim somos capazes de fazer muita coisa, imagine o que podemos fazer se tivermos a liberação de TODA a energia, direcionada exclusivamente para um único fim. É por isso que os mestres conseguem realizar enormes obras com um mínimo de esforço. Todos os seres já são perfeitos e dotados de virtude e sabedoria, mas o ego não permite que eles percebam isso, pois o ego nos mantém adormecidos, como se estivéssemos sonhando. O primeiro passo para alcançarmos o despertar é praticar meditação regularmente e observarmos diligentemente os preceitos. Finalmente, um coan: se o ego é ilusão, então quem realmente somos?
O caminho de Buda é insuperável. Faço votos de percorrê-lo até o fim e de realizá-lo.
Que todos possam se beneficiar.
Precisamos compreender profundamente o verdadeiro sentido desta afirmação. Esse é o primeiro passo para entendermos e aceitarmos nossa condição atual, a fim de nos libertarmos das amarras que encobrem nossa verdadeira natureza como as cascas de uma cebola.
Gautama Buda alcançou a mais profunda compreensão da realidade e afirmou: "Maravilha das maravilhas. Todos os seres são completos e perfeitos, dotados de virtude e sabedoria, mas os pensamentos ilusórios impedem que percebam isso". Este foi o primeiro grande ensinamento de Shakyamuni Buda. Não é difícil compreender esta verdade. Basta seguir esta linha de pensamentos:
1) Nossa personalidade é formada por inúmeros eus, ou 'egos'. A cada momento, um ego assume o controle do barco e direciona nossas energias para alcançar seu determinado e próprio objetivo. A própria palavra 'personalidade' deriva do latim 'persona', que quer dizer 'máscara', ou seja, nossa personalidade nada mais é do que uma máscara que usamos temporariamente para atuarmos na sociedade. A personalidade muda o tempo todo. Quando um ego romântico assume o controle, nos tornamos românticos. Quando é um ego raivoso que está no comando, nos tornamos raivosos, e assim por diante. Compreendendo isso, fica fácil concluir que na verdade não temos uma personalidade real e única, mas CADA EGO que nos habita tem sua própria personalidade.
2) O ego não existe por si só. Se você meditar profundamente sobre um determinado ego, vai perceber que ele se desvanece como uma nuvem. Ele não possui essência, não tem nada de concreto, é apenas uma associação de pensamentos que adquire uma personalidade própria. É como um fluir de pensamentos e emoções que se enredam e assumem a ilusão de ser alguma coisa real. Todos os egos são apenas associações de pensamento, assumem uma personalidade e quando estão no comando temos tanta certeza de sua existência que pensamos: este sou eu, eu sou assim, eu quero isso, eu não quero aquilo, é minha opinião. Porém, nada mais falso, são apenas pensamentos agrupados e associados que assumem vida própria e por alguns momentos acabam por assumir o comando.
3) Todo ego tem origem em algum tipo de apego. Existem três tipos de apego, os três venenos: aversão, desejo e ilusão. Ao passar por uma loja, vemos um objeto qualquer e sentimos imensa vontade de ter aquele objeto (roupa, sapato, livro, o que for). Quando saímos do trabalho, ficamos presos no trânsito e isso nos torna nervosos, queremos sumir dali, buzinamos para que o carro da frente ande mais rápido, queremos nos mover e não podemos, simplesmente não queremos ficar ali presos no trânsito. Quando alguém nos contraria, retrucamos: com quem você acha que está falando? Sabe quem eu sou? Ponha-se no seu lugar! Estes são apenas alguns exemplos para mostrar como agem os nossos egos: o desejo pelo que não temos, a aversão pelo que não queremos e a ilusão de sermos alguém especial, melhor ou pior do que as outras pessoas.
4) Todo apego (portanto todo ego) leva à insatisfação e consequentemente ao sofrimento. É impossível saciar um ego. Não há como um ego alcançar a satisfação plena, ele sempre vai querer mais. Após uma breve saciedade, poderá ficar latente por algum tempo, mas depois retornará querendo mais. Quando um ego está parcialmente saciado, dá lugar a outro ego, portanto vivemos ininterruptamente em busca da satisfação e saciedade, como burros correndo atrás de uma cenoura. Um objetivo que jamais poderá ser alcançado. O ego pode proporcionar momentos de prazer e alegria, mas não pode nos prover da mais genuína felicidade, pois isso vai contra sua própria natureza. A natureza do ego é o desejo, fundamentado na insatisfação. Logicamente, não é possível encontrar a felicidade com a satisfação do ego: teremos apenas um momento de prazer e em seguida estaremos novamente buscando a satisfação de outro ego, em um círculo vicioso infinito. Como o ego não tem qualquer fundamento ético ou moral, a satisfação de determinados desejos irá fatalmente criar sofrimento para si e/ou para outras pessoas. Palavras ditas com a intenção de satisfazer um ego poderão ferir profundamente a outrem.
5) Lutar contra o ego é uma guerra perdida. Isso pode ser explicado matematicamente: um praticante de meditação sabe que consegue ficar plenamente desperto somente alguns momentos durante o dia. O resto do tempo está adormecido e sendo jogado de ego para ego como um barco à deriva. Os egos se sucedem como elos de uma corrente interminável. Os raros momentos de samadhi advindos da meditação interrompem brevemente essa corrente. Nesses momentos, estamos lúcidos e, apesar de ainda percebermos a presença do ego, conseguimos agir sem sua influência. Digamos que um praticante consiga ficar desperto por 1% do tempo do dia, ou seja, por uns 10 minutos. Acredite, isso já é bastante coisa. Então temos que por 10 minutos estamos conscientes e pelos 950 minutos restantes (levando em consideração um dia útil de 16 horas) ficamos à deriva e à mercê de nossos egos. Não precisa ser nenhum gênio para perceber que lutar contra o ego é uma guerra perdida. Ele tem muito mais força, está no comando por muito mais tempo, é muito mais esperto e tem a habilidade de criar artimanhas que nos vencem facilmente. Uma das artimanhas é nos provocar SONO durante a meditação, ou ficar o tempo todo nos lembrando de coisas a fazer, como uma agenda eletrônica irritante ligada em 220 volts. Portanto, qualquer luta que empreendermos contra o ego estará fadada ao fracasso. Não é esse o caminho, ele não levará a nada e você estará correndo sérios riscos de ficar neurótico, obsessivo, depressivo e até com tendências suicidas.
6) Egos não alimentados enfraquecem e morrem sozinhos. Esta foi uma das grandes constatações de Gautama Buda. Em cima dessa constatação foram elaborados os preceitos budistas e o nobre caminho óctuplo. Se tivermos um modo de vida correto, estaremos deixando de alimentar o ego, ele perderá forças e aos poucos iremos libertando energia para a nossa verdadeira consciência, nossa natureza búdica. Cada preceito por si só tem o poder de liberar enormes quantidades de energia. Por exemplo, 'não mentir, mas defender a verdade'. Gastamos energia mental para fantasiarmos uma mentira e depois para lembrar e reafirmar a mesma quantas vezes for necessário. Se tivermos o hábito de mentir, acabamos por perder uma imensa quantidade de energia diariamente, simplesmente para sustentar fatos que não aconteceram ou pelo menos que não aconteceram DAQUELE jeito. Porém, se optarmos por falar sempre a verdade, não precisaremos nos preocupar em lembrar qual mentira contamos. Basta falar a verdade. Pronto, um montão de energia liberada para nossa verdadeira natureza! E o mesmo ocorre para os demais 15 preceitos observados por todos os praticantes leigos. Se conseguirmos observar todos os 16 preceitos o tempo todo, veremos aos poucos que nossa mente se torna mais clara, mais calma, centrada, conseguimos ver as coisas com mais clareza e não ficamos 'viajando' tanto quanto antes. É um processo lento mas que dá muito resultado.
7) Atrás das nuvens brilha o sol. Se os egos são como nuvens de pensamento que envolvem nossa natureza búdica como cascas ao redor de uma cebola, ao enfraquecermos o ego essas nuvens se dissipam e aos poucos irá brilhar nossa natureza como o sol brilhando após um dia nublado. Se praticarmos a meditação diligentemente, se procurarmos manter nossa mente alerta durante o dia e se observarmos os preceitos, veremos um progresso contínuo em nossa prática. Nosso samadhi vai ficando cada vez mais profundo, por mais tempo e por mais vezes durante o dia. Isso vai preparando o terreno para o próximo passo: o Kenshô.
8) Kenshô: geralmente ocorre durante longos retiros, pois digamos que de certa forma exige determinadas condições para acontecer. Um kenshô é uma experiência direta da iluminação. Dura de 20 a 30 segundos, e nesse período desaparece a dicotomia sujeito-objeto. Tudo é uma coisa só, tudo está interligado, tudo é perfeito como é, cada átomo é necessário e está no local correto, não há passado nem futuro, somente o momento presente. Não há distinção entre eu-outro. Conteúdo é forma, forma é conteúdo. A mais absoluta e plena paz, uma indescritível sensação de liberdade, pois nesses momentos estamos livres do ego. A mente está dominada e quieta. Esquecemos de nós mesmos e vivemos por alguns momentos em nossa natureza búdica. A experiência do kenshô é libertadora e muda completamente uma pessoa. O mundo muda e a iluminação torna-se possível. O kenshô geralmente só acontece após longos períodos de meditação, quando o praticante está exausto e literalmente desiste de alcançar a iluminação. É por isso que os sesshins são tão severos, a intenção do sesshin é gerar esta crise artificial, esta exaustão, para que o kenshô possa acontecer. Mas o praticante que realiza um kenshô passa a viver um outro dilema: Ele sabe que a iluminação é possível, já experimentou a iluminação, e mesmo assim continua preso nas tramas do Samsara, à mercê do ego, jogado de emoção em emoção como uma folha na correnteza. É complicado. Ele precisa se libertar o mais rápido possível. Após o primeiro kenshô tem início um período conhecido como Noite Escura. Na verdade todos nós vivemos como se estivéssemos sonâmbulos. Aquele que realiza o kenshô toma consciência disso e consegue perceber a escuridão em que está inserido.
9) Satori: Quando o praticante persiste na prática e se dedica com todas as forças para alcançar a iluminação, participando do maior número possível de sesshins e por vezes fazendo retiros solitários por conta própria, vai tendo paulatinamente mais experiências de kenshôs, até que o kenshô passa a ser diário, como os samadhis. O praticante tem continuamente insights fantásticos, visões e experiências místicas. Começam a se desenvolver os siddhis (certos 'poderes' considerados 'sobrenaturais'). Nesse estágio, a qualquer momento um determinado estímulo pode finalmente levar o praticante ao SATORI, que é a iluminação propriamente dita. Existem vários níveis de iluminação. Há quem afirme que aquele que realizou um kenshô já alcançou uma iluminação, mas particularmente considero esta afirmativa muito perigosa, pois quando realizamos o primeiro kenshô ainda estamos totalmente à mercê do ego. Somente após o despertar da natureza búdica - satori - é que vencemos o ego. O ego se desvanece, desaparece. Passamos a usar a personalidade quando e como desejarmos, sem sermos afetados por ela. Não há mais apego. Sabemos que a personalidade utilizada naquele momento não somos nós. É o Nirvana, nenhum vento nos leva. É como o mecânico que, após usar uma ferramenta, simplesmente a abandona pois não precisa mais dela.
Concluindo, quando tomamos consciência de que o EU É ILUSÃO, tem início um longo processo em busca de nossa verdadeira natureza. Após dispersar as nuvens do ego que encobrem nossa natureza, ela pode brilhar com toda a sua intensidade. Eliminados os apegos que nos levam ao sofrimento, o que resta é a mais profunda paz e felicidade. A personalidade deve ser apenas uma ferramenta que utilizamos para conviver em sociedade, mas precisamos ter consciência de que ela não representa o que somos, é apenas uma roupa que precisamos vestir de acordo com cada situação. E por fim, se o ego consome quase a totalidade de nossa energia e mesmo assim somos capazes de fazer muita coisa, imagine o que podemos fazer se tivermos a liberação de TODA a energia, direcionada exclusivamente para um único fim. É por isso que os mestres conseguem realizar enormes obras com um mínimo de esforço. Todos os seres já são perfeitos e dotados de virtude e sabedoria, mas o ego não permite que eles percebam isso, pois o ego nos mantém adormecidos, como se estivéssemos sonhando. O primeiro passo para alcançarmos o despertar é praticar meditação regularmente e observarmos diligentemente os preceitos. Finalmente, um coan: se o ego é ilusão, então quem realmente somos?
O caminho de Buda é insuperável. Faço votos de percorrê-lo até o fim e de realizá-lo.
Que todos possam se beneficiar.
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