quarta-feira, 8 de abril de 2026
O grande antídoto
terça-feira, 14 de outubro de 2025
21 semanas #6 - Shamata pura na vacuidade
Após já termos praticado Shamata pura e também ter meditado sobre o Prajnaparamita, nesta semana vamos fazer as duas coisas juntas: estar presentes na vacuidade.
#14/10, terça feira: entrando rapidamente em estado de presença, também rapidamente percebemos a vacuidade de todas as identidades e fenômenos. Após contemplar por alguns minutos, surge a dúvida: é a mente que cria o vazio ou é do vazio que surge a mente?
segunda-feira, 6 de outubro de 2025
Decifrando a mente #10 - os mapas mentais
Os mapas mentais funcionam a partir de uma identidade. Temos infinitas identidades que procuram rotular "eu sou isso" ou "eu sou aquilo". As identidades são como infinitos reis que mandam em um castelo, mas o castelo só tem um trono e os reis se sucedem infinitamente para ocupar o lugar de comando. Assim que senta no trono, a identidade busca se solidificar, atraindo coisas que a sustentem, divulgando a todos as suas incríveis qualidades, afastando todas as ameaças a seu poder e combatendo todos aqueles que a contrariem.
Como todos os reis, cada identidade possui seus mensageiros que vão comunicar a todos os ditames do imperador, bem como exaltar e divulgar sua inegável majestade. Também possui um conselho de sábios que vão trazer informações e um séquito de operários que construirão monumentos para mostrar para todos os povos do planeta a sua magnificência. É claro que também terá um exército muito hábil em defender o seu reino e caçar a todos que possam representar alguma ameaça.
Mas cada identidade permanece no trono de comando apenas por muito pouco tempo. Logo são substituídas por outra identidade, com seus próprios atributos, qualidades, medos e raivas, conselheiros, séquitos e exércitos.
Eu gosto de pensar nessa alegoria dos milhares de reis que moram em um castelo com apenas um trono. Acho mais fácil de entender do que o javali, o galo e a cobra usados por Buda para descrever a mesma coisa: as bolhas de realidade. São apenas alegorias diferentes, mas o significado é o mesmo.
As bolhas de realidade são recortes toscos e distorcidos da realidade que nos cerca. O tempo todo, vemos apenas um aspecto bastante limitado e obtuso da realidade, totalmente influenciado pelos referenciais e pela identidade do rei que está no trono, ou pelo javali.
Mas os mapas mentais não são constituídos apenas pelas bolhas de realidade. Eles também dependem do estado emocional vigente, ou melhor, da paisagem mental em que estamos operando no momento. Buda descreveu essa paisagem mental usando a alegoria dos seis reinos: Reino dos deuses, dos semi-deuses, dos humanos, dos animais, dos seres famintos e dos infernos. Particularmente, não consegui imaginar uma descrição melhor, então vou manter essa mesma.
As características dos seis reinos é amplamente abordada em uma vasta literatura e acho desnecessário tentar explicar algo que tem tanta bibliografia a respeito. Basta dar uma pequena pesquisada em qualquer fonte minimamente confiável.
Então concluímos que o mapa mental vigente é formado pela bolha de realidade e pelo reino em que se encontra a mente em cada instante, incluindo ainda fatores como a energia disponível e a motivação. Tudo isso junto vai definir o óculos com o qual cada ator vai olhar para aquilo que está sendo percebido ou pensado no momento. A cor do óculos vai indicar qual a carta que cada estagiário vai escolher para responder ao estímulo que a mente está recebendo, por exemplo.
Mas quem controla os mapas mentais? Qual o ator que comanda essa parte da mente que define o que deve ser feito por todo mundo? Quem é o comandante do setor mais importante da mente?
Em um primeiro momento, pensei que era a consciência, pois ela tem o poder de mudar o mapa quando desejar. Mas ela também é influenciada. Se ela não agir ativamente por vontade própria, vai seguir o roteiro do mapa atual passivamente. Então há outro ator que comanda o mapa mental, mas ainda não sei identificar quem é.
Buda representa esse ator como sendo Maharaji, uma manifestação de Mara. É ele que comanda a roda da vida, mudando os reinos onde estamos e trazendo as bolhas de realidade para o trono. Como não consigo imaginar outra resposta melhor no momento, vou manter essa mesma alegoria. Mara é o rei do Samsara, é ele que cria Dukkha e Maharaji é a parte dele que comanda a nossa mente, se não estivermos conscientes.
Então, na falta de um entendimento melhor, concluímos que Maharaji é quem define os mapas mentais que influenciarão todas as decisões tomadas pela nossa mente. A seguir, veremos um aspecto que não é abordado nos cinco skandas: as respostas de corpo, fala e mente.
21 semanas #5 - Prajnaparamita
O mantra do prajnaparamita sugere que estamos em uma margem e precisamos atravessar para a outra margem. Por isso a alegoria de um barco. Nesta margem, vemos as coisas com a projeção da nossa mente: casas, árvores, automóveis, pessoas, montanhas. Tudo parece ser normal. Durante a travessia, vamos percebendo que tudo isso é criado em nossa mente a partir de um vazio luminoso. Ao chegarmos do outro lado, entendemos que tudo o que existe é vacuidade. Atravessamos completamente e repousamos na vacuidade. É isso que quer dizer o mantra: GATE GATE PARAGATE PARASAMGATE BODHI SWAHA.
Uma árvore não é uma árvore. É um conjunto de incontáveis coisas que formam aquilo que nossa mente rotula como árvore. E mesmo cada um de seus componentes, em si, não são esses componentes. Eles também são vacuidade, eles também não possuem uma identidade. Nada que vemos ao nosso redor é como pensamos que é.
Um edredom dobrado em cima da cama não é um edredom. É um amontoado de fiapos trançados e costurados com um recheio de fibras. Se olharmos no microscópio, não existe edredom em lugar algum. Nem as fibras, nem os fiapos. Só há vazio, algumas moléculas que se conectam com outras de uma forma ligeiramente organizada, sendo que seu conjunto completo cria uma forma que nossa mente, de acordo com seus referenciais, interpreta como "edredom". Então, aquele edredom não é um edredom. Não existe edredom, mas a nossa mente cria a ideia de um edredom a partir do vazio luminoso onde opera e a projeta sobre aquilo que nossos olhos estão vendo. O edredom só existe na nossa mente. Para uma traça, aquilo não é um edredom, é comida, porque os referenciais da traça são outros. Para um pássaro, é uma fonte de material para se fazer um ninho. Para um cão, é um brinquedo pronto para ser destruído. No momento em que nossa mente enxerga o edredom, ela deixa de ser capaz de ver o vazio luminoso que há por trás dele. O prajnaparamita é a sabedoria que nos permite perceber a vacuidade em tudo o que existe. Forma é vazio, vazio é forma, nada mais.
#06/10/25, segunda feira: refúgio, linhagem, motivação, shamata, methabavana. Cinco minutos observando o edredom à minha frente e mais cinco minutos contemplando. A compreensão do prajnaparamita ainda está em um nível bastante racional, apesar de presente durante todos os dias, quase o tempo todo.
#07/10/25, terça feira: voltei o prajnaparamita para mim mesmo. Eu sou apenas uma construção da minha mente. Um amontoado de células que acredita ser alguém ou alguma coisa. Um corpo vivo que pensa ter uma identidade.
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
Decifrando a mente #9 - energia
Decifrando a mente #8 - o fracassado
Decifrando a mente #7 - a tela mental
A tela mental é bastante complexa. Ela pode até criar cenários incríveis, em 3D e coloridos, como em nossos sonhos lúcidos, que podem ser tão reais que não conseguimos distinguir se estamos sonhando ou se estamos acordados. Ela é usada pelo macaco louco, pelos gerentes e até pelos estagiários do piloto automático. Também é usada pela nossa consciência e está sendo usada agora, nesse momento, enquanto você lê esse texto, pois se eu sugerir: "imagine um gramado bem verde com árvores e o mar ao fundo", você provavelmente deve ter criado e projetado essa cena em sua tela mental.
Nossa mente se retroalimenta daquilo que é projetado na tela mental através das percepções, como já vimos antes. Nós interagimos com essa projeção. Somos capazes de andar dentro dos nossos sonhos e de conversar com pessoas que só existem em nossa mente. As alucinações são distúrbios perceptivos nos quais não conseguimos distinguir se o que estamos vendo é real ou não.
As viagens astrais, sonhos lúcidos ou projeções da consciência, ocorrem integralmente dentro de nossa mente, sendo tão reais e perfeitas que acreditamos firmemente terem sido reais. Nesse ponto precisamos abrir parênteses: Nossa mente é capaz de perceber questões muito sutis, muito além da nossa percepção normal. Somos capazes de acessar informações, memórias e fatos que estão em um nível mais sutil e mais amplo, mas nossa mente tem dificuldade em entender o que está vendo e interpretar de forma correta. Dessa forma, ela cria uma projeção que procura traduzir a informação acessada dentro de alguma alegoria que conseguimos entender, que faça sentido dentro dos nossos referenciais. Então, sonhamos que estamos em uma montanha flutuando, conversando com um sábio em forma de unicórnio que nos diz uma determinada frase que parece conter toda a sabedoria do universo e, conforme vamos acordando, percebemos que nada disso faz realmente muito sentido. A questão é que talvez tenhamos mesmo acessado uma informação sutil muito importante, mas nossa mente criou todo um cenário com elementos que tentam, de alguma forma, materializar aquilo que foi percebido. Isso tudo é jogado como um filme em nossa tela mental e, depois, tentamos lembrar dos detalhes do que foi sonhado, sendo que a maior parte da informação original é perdida, pois parece simplesmente não ter nenhuma lógica.
Podemos também ter sonhos premonitórios: Nossa mente acessa uma área sutil de probabilidades e percebe que algo pode realmente acontecer. Então ela precisa de um agente que traga essa informação, alguém em quem confiamos e que consideramos ser protetores: um pai, uma mãe, um irmão mais velho, um mestre, um guru ou santo. A mente cria todo um cenário, com esse ator, interpretando um personagem nos avisando sobre o que está para acontecer. Esse sonho nos parece tão real que acreditamos realmente que essa pessoa veio até nós, que estamos mesmo falando com espíritos. Mas é tudo criação da mente, mesmo que em cima de algo sutil que realmente venha a acontecer. Aquilo que entendemos como "mediunidade" é justamente isso: acessamos de verdade uma área sutil e nossa mente cria atores e cenários que encenam essa informação.
Ao estudarmos a mente com profundidade, vamos aprendendo a lidar com a tela mental, distinguindo melhor o que é ou não real, o que é ou não pura criação ou interpretação da mente. Vamos nos familiarizando com essa projeção e aprendendo com ela e, em um estágio bem superior, vamos entender que mesmo as projeções que são reais, na verdade, também são criações da nossa mente em cima daquilo que nossos sentidos captam. Por exemplo, quando vemos uma casa, nossa mente projeta essa mesma casa em nossa percepção, usando a tela mental. Mas não estamos realmente vendo AQUELA casa, e sim, uma projeção mental criada em cima daquela casa que nossos olhos estão enxergando. É uma casa, mas não é bem AQUELA casa. É outra coisa, é uma criação mental. Por fim, transcendemos a tela mental e entendemos que, enfim, aquela casa não é uma casa, mas é uma casa, e tudo bem. E nos divertimos com isso. O tempo todo, para tudo o que olharmos, acordados, alucinados ou dormindo.
Decifrando a mente #6 - o narrador
Decifrando a mente #5 - o macaco louco
segunda-feira, 29 de setembro de 2025
21 semanas #4 - Metabavana
Iniciando a quarta semana do roteiro de 21 itens do CEBB: Metabavana.
Refúgio, linhagem, motivação, atenção, presença.
29/09, segunda-feira: recitação da Metabavana direcionada a pessoas que amo, familiares, e também a pessoas que não gosto. Prática mais racional, ainda preciso aprofundar mais.
02/10, quinta feira: sentimento mais aprofundado. Sinto que eu realmente desejo que as pessoas alcancem a paz e a felicidade, sejam próximas ou não, de quem eu goste ou não. Percebi que devo deixá-las encontrar seus próprios caminhos para a felicidade, pois não cabe a mim exigir que seja esse ou aquele caminho.
05/10, domingo: caminhando na rua, expandi a metabavana para todos os seres. Percebi que todos estão fazendo o melhor que podem, dentro de suas limitações e de acordo com seus próprios referenciais. Cada coisa que existe é a mais bonita que pode ser. O piso de cimento do mercado é o melhor e mais bonito que o pedreiro conseguiu fazer. Os produtos nas gôndolas estão dispostos da melhor forma e do jeito mais bonito que o repositor conseguiu colocar. Na rua, o cachorro está abanando o rabo do jeito mais alegre que consegue. O pé de grama está crescendo da melhor forma que pode. A flor do campo está se esticando e abrindo suas pétalas do jeito mais bonito que consegue, para atrair os insetos polinizadores. Por todos os lados, para onde quer que possamos olhar, tudo o que existe é o melhor e mais bonito possível. Por isso, todos os seres estão sendo o mais felizes que podem ser. Todos os seres estão tentando se livrar do sofrimento da melhor forma que podem. Que a minha missão seja conseguir tocar cada um dos seres e ajudá-los a perceber as verdadeiras causas da sua felicidade e a superar as verdadeiras causas de seu sofrimento.
segunda-feira, 22 de setembro de 2025
Decifrando a mente #4 - Os gerentes
Então, as formas ao nosso redor nos vêm através dos cinco sentidos e nossa percepção seleciona aquilo que acha que é importante, passando para os estagiários do piloto automático decidirem o que fazer.
Mas os estagiários não sabem resolver tudo e, muitas vezes, possuem cartas com informações erradas, inapropriadas, contraditórias ou insuficientes. Além disso, frequentemente eles não sabem o que fazer. Nesses casos, é necessária a intervenção de um gerente. O grande problema é que nossa mente possui DOIS gerentes, mandando da mesma forma nos mesmos estagiários: o gerente das emoções e o gerente lógico.
O gerente lógico é aquele cara chato. Ele tem um dicionário, uma calculadora, uma planilha, uma agenda, uma lista de tarefas e outras tantas ferramentas para ajudar nos cálculos e decisões racionais exigidos pelas demandas diárias. O gerente lógico é lento, metódico, preso a cronogramas e fluxogramas. Suas decisões são frias e racionais. Ele não sabe se divertir e não sabe o que fazer em situações que exigem mais emoção do que razão. E ele também comete erros em seus cálculos. É como um capricorniano com ascendente em virgem.
O gerente emocional é um pisciniano com ascendente em aquário. Ele chora, ri, se emociona. Ele brinca, canta, desenha, pinta. É um artista, um ator, um poeta. Ele vê a beleza das coisas, ele ama e se apaixona, mas ele também odeia. Ele briga, discute, quebra coisas, fala verdades e inverdades sem pensar, ele machuca, ele humilha, ele mata. O gerente emocional é muito rápido, espontâneo e briga o tempo todo com o insuportável do gerente lógico.
Só que o gerente emocional tem uma coisa que o gerente lógico não tem: acesso à energia.
Se você estiver na véspera de uma prova importante, o seu gerente lógico vai querer atravessar a noite estudando. Mas o gerente emocional quer ir pra uma festa. O gerente lógico reclama e diz que não vai sair de cima dos livros. Aí, o gerente emocional desliga o gerador de energia, você fica com sono e dorme sem conseguir estudar. Pode ter certeza que, se decidisse ir à festa, você não estaria com sono.
A "energia" aqui é interpretada da mesma forma que o tantra tibetano: são os lungs que nos movem entre tristeza e alegria, apatia e euforia, amor e ódio, paz e raiva, aversão e desejo. O tipo de energia e sua intensidade influenciam o gerente emocional, que pode ou não alterar tanto o tipo quanto a intensidade dessa mesma energia.
Por exemplo, vimos alguém maltratando um cachorro. Imediatamente sentimos raiva dessa pessoa e queremos arrumar briga com ela, é a resposta automática a esse estímulo, é nosso impulso. Mas o gerente emocional pode entender a situação e trocar o ódio pelo acolhimento e pela proteção, se perceber que o cachorro estava atacando a pessoa antes e ela estava só tentando se defender, e assim tomar outras medidas.
Como o gerente emocional tem a chave do motor de energia, é através dele que nosso progresso espiritual ocorre. O gerente lógico só consegue ir até uma parte do caminho: ele pode memorizar textos e livros sagrados, pode recitar salmos de cor, pode até entender logicamente como todo o caminho deve ser percorrido. Mas ele não consegue ir adiante. Sua importância é fundamental, pois sem o mínimo conhecimento do caminho não há possibilidade de progresso, mas o caminho deve ser percorrido usando o gerente emocional.
Buda ensinou sobre as quatro nobres verdades, e esse é um conhecimento lógico: Dukkha existe, tem uma origem, pode ter um fim e há um caminho para esse fim. É racional, é lógico, e o papel do gerente lógico termina aí. O caminho de oito passos precisa ser trilhado pelo gerente emocional: transformar as ações negativas de corpo, fala e mente em ações positivas, praticar a meditação e alcançar a sabedoria.
Por exemplo, a Fala Correta: paramos de insultar, de caluniar, de mentir, de agredir verbalmente as pessoas, sejam quem forem e, ao invés, passamos a enaltecer, a elogiar, a falar e defender a verdade, a empoderar e a motivar, sempre para o maior benefício a todos os seres. As fichas dos estagiários vão sendo substituídas, uma a uma, com reações mais favoráveis e mais apropriadas nesse sentido.
Enfim, os gerentes lógico e emocional são, normalmente, dois brigões que se detestam. Mas ao percorrer o caminho espiritual, eles vão se apaziguando e entrando em acordos. Ao fim, são como dois irmãos, pois possuem o mesmo objetivo e obedecem a um Senhor maior, que é a Consciência. Mas antes de vermos sobre a consciência, vamos estudar outros aspectos interessantes da nossa mente, como o Macaco Louco, na próxima postagem.
Decifrando a mente #3 - Piloto automático
As formas ao nosso redor nos chegam por meio dos nossos cinco sentidos. Nossa mente percebe apenas uma parte dessa informação e começa então a processá-la. Vou usar uma alegoria própria para ilustrar a forma como esse processamento é feito:
Decifrando a mente #2 - Percepção
Os cinco Skandas são: formas, sentidos, percepção, formação mental e consciência.
Já vimos sobre os sentidos e vamos ver as formas mais tarde, quando estudarmos o Prajnaparamita. Hoje vamos estudar a Percepção.
Nossos sentidos trazem informações limitadas sobre o ambiente ao nosso redor. Nossa mente então realiza a percepção dessas informações, selecionando apenas as partes que interessam, de acordo com nossos estados mentais, a nossa energia e a bolha de realidade ativa no momento.
Por exemplo, quando estamos dormindo, não enxergamos nada. Nossa audição também fica drasticamente reduzida e às vezes nem sentimos quando alguém nos toca. Da mesma forma, se estamos com baixa energia, mesmo conscientes, percebemos apenas uma ínfima fração daquilo que enxergamos, ouvimos etc. E se estamos totalmente focados em alguma coisa, mesmo que plenamente conscientes, não percebemos as diversas outras coisas que acontecem ao redor no mesmo instante. Isso já foi demonstrado em vídeos onde precisamos contar quantas vezes uma pessoa pula, e não percebemos um ator vestido de elefante passando por trás dessa pessoa. Em uma conversa numa mesa de bar, com várias pessoas conversando ao mesmo tempo, geralmente só conseguimos prestar atenção em um diálogo e não conseguimos prestar atenção nos demais assuntos que estão sendo falados. Se estamos andando na rua, olhando para um celular, a chance de sofrermos um acidente por desatenção é enorme, e é por isso que é proibido dirigir e falar ao celular ao mesmo tempo. Só conseguimos prestar atenção em uma coisa de cada vez.
Nossa mente precisa focar em um assunto de cada vez e, para isso, precisa descartar todo o resto. Porém, nossa mente não funciona exatamente como um computador. Ela é muito mais complexa do que isso. Na verdade, é a mente que cria as realidades e molda as nossas percepções, e essa criação vem de um vazio luminoso muito mais amplo do que a mente.
Partimos do vazio luminoso e criamos uma identidade, uma identificação. Nesse momento, o vazio luminoso desaparece, dando lugar à identidade. Isso acontece muito rapidamente e não nos damos conta. Vemos uma flor e gostamos dela, achamos ela bonita, nos APEGAMOS a ela. É nesse momento que criamos uma identidade: o cara que gosta daquela flor. No momento seguinte, procuramos cuidar da flor, dando água a ela e falando sobre ela para as outras pessoas. E logo em seguida, queremos proteger aquela flor, atacando todo e qualquer parasita que chegar perto dela e impedindo que alguém a colha. Assim, sem perceber, criamos uma realidade que antes não existia. Essa realidade, essa identidade, brotou de um vazio luminoso que está disponível o tempo todo, mas não conseguimos mais ver o vazio. Só conseguimos ver a flor e a nossa identidade como aquele que gosta daquela flor, e isso é tão real que parece que é tudo o que temos. Descartamos todo o resto. É assim que a nossa mente filtra o que percebe e o que é descartado durante a percepção. A identidade é simbolificada pelo javali. O fato de querer nutrir e falar para todo mundo é o galo. A questão de querer proteger e afastar tudo o que puder ser uma ameaça é a cobra. O javali, o galo e a cobra criam, juntos, uma bolha de realidade. Um fragmento da realidade que só existe em nossa mente e que foi criada pela mente direto do vazio luminoso na qual ela opera.
Temos infinitas bolhas de realidade e trocamos de bolhas o tempo todo. Sempre vai ter somente uma no comando, mas ela fica pouco tempo e logo é substituída por outra. Algumas bolhas são mais sólidas: temos uma família, uma profissão, uma religião. Temos uma casa, um carro. São bolhas mais densas e difíceis de desapegar. A questão é que a bolha vigente na mente, naquele instante, define e projeta sobre as informações que recebemos através dos cinco sentidos aquilo que chamamos de percepção.
A percepção é uma interpretação da realidade feita pela mente, baseada na bolha de realidade que estiver vigente no momento e no estado mental em que ela estiver operando. Essa interpretação é limitada, frequentemente incompleta ou equivocada e cria realidades ilusórias e fantasiosas que acreditamos firmemente serem reais. O tempo todo, a cada instante. E não vemos todo o resto. Essas bolhas permanecem ativas somente enquanto houver energia para mantê-las.
Você está fazendo seu trabalho, normalmente, operando na bolha do profissional que é. De repente, escuta uma notícia de que seu time favorito perdeu um jogo. Nesse momento, você deixa a bolha do profissional e assume a bolha do torcedor e fica furioso com isso. A raiva é a energia que foi canalizada para a cobra da bolha do torcedor. Mas logo precisa voltar ao trabalho e assume a bolha do profissional novamente, e a energia é direcionada de volta para a bolha do profissional. Isso pode ser muito rápido, coisa de segundos apenas. Talvez você nem perceba que trocou de identidade tão rápido, mas no momento em que você estava ouvindo a notícia (audição), sua percepção focou apenas na notícia e você não conseguiu perceber mais aquilo que estava fazendo como profissional. É assim que a nossa percepção funciona.
Portanto, nossos sentidos já trazem apenas uma parte da realidade ao nosso redor, e a nossa mente ainda reduz essa informação apenas àquilo que a interessa no momento. Vivemos no mundo aproveitando apenas cerca de 3% (ou menos) de tudo o que nos rodeia. Vivemos em bolhas de realidade, geralmente bem pequenas, limitadas e frágeis. Somos quase zumbis na Terra, sem desfrutar das imensas maravilhas que acontecem incessantemente, justamente porque nossa mente só percebe aquilo que interessa à bolha de realidade vigente no momento.
Ainda há a questão da retroalimentação da própria mente, que cria cenários que acreditamos ser reais, mas são pura criação da mente. Isso acontece nos sonhos e nas alucinações: muitas vezes os sonhos são tão reais que não percebemos que estamos sonhando. Estamos enxergando, ouvindo, sentindo, mas na verdade não estamos lá. Estamos dormindo placidamente na cama. Nossa mente possui algo parecido com um retroprojetor interno e, durante os sonhos, assistimos essa tela como se fosse um filme, incrivelmente real. Mesmo conscientes, às vezes entramos em devaneios. Nossa mente projeta um filme, nossa percepção está focada nele e, por vezes, nem percebemos a realidade ao nosso redor. Isso acontece com frequência quando estamos viajando de ônibus, por exemplo. Ficamos lembrando de cenas passadas, ou projetando realidades futuras. Nossa percepção está lá, nessa tela mental, e não aqui no mundo real.
Por fim, como operamos pulando de uma bolha de realidade para outra o tempo todo, não conseguimos perceber mais o vazio luminoso que está por trás disso tudo. Como neste texto: entre uma letra e outra, entre uma linha e outra, existe um espaço. Tem muito mais espaço do que letras, mas não percebemos o espaço. Apenas as letras. A percepção é mais ou menos assim.
quarta-feira, 17 de setembro de 2025
21 semanas - #3 - Shamata pura
Shamata pura é a meditação na presença. Apenas estar aqui, percebendo tudo o que estiver ao redor, com todos os sentidos do corpo.
O primeiro estágio do samadhi acontece quando a meditação ocorre sem esforço, em paz, em silêncio. A respiração muda sozinha, ficando muito mais lenta e suave. O corpo inteiro é pacificado. A mente silencia, mas você ainda percebe sua operação incessante, criando realidades sem parar. Percebemos as realidades ao nosso redor com muito mais intensidade. As cores, os sons, os cheiros, as dores no corpo, tudo fica muito mais real, mais vívido, mais intenso. E nos damos conta de que tudo isso, mesmo mais real, ainda é pura construção da nossa mente.
Esses momentos de primeiro nível de samadhi duram poucos segundos, mas são preciosos. Eles sinalizam o lugar onde a mente deve repousar, e para onde devemos retornar sempre que sentamos em meditação. Uma vez alcançado o primeiro nível de samadhi, fica mais fácil retornar a ele depois, pois sabemos como ele é. Mas isso ainda está muito longe do despertar da natureza última, da iluminação final. É apenas o primeiro passo.
# Quarta feira, 17/09 - Refúgio, linhagem, motivação. Muita divagação. Usei uma técnica que funcionava no zen: deixava a mente adormecer e acordava repentinamente, direto para o estágio inicial de samadhi. Fiz umas três vezes, com sucesso. O último samadhi, no minuto final da meditação, foi bem intenso, estável e mais longo.
# Sábado, 20/09 - Um longo período de sucessivos samadhis nível 1. Em determinado momento, apenas repousei no samadhi e esqueci de mim mesmo. Creio ter tido a primeira experiência de samadhi nível 2, mesmo que bastante rápida. Entendi a frase "esquecer de si mesmo" do mestre Dogen. A iluminação não é um objetivo a ser alcançado. É algo que ocorre naturalmente quando suas identidades se dissolvem.
# Domingo, 21/09 - Meditação feita à noite antes de dormir, cansado. Poucos momentos de presença.
# Segunda, 22/09 - Longos períodos de presença (samadhi nivel 1). Ao final, não importava há quanto tempo estava meditando ou quanto tempo faltasse. A mente estava em um estado natural, quieta, em paz.
# Terça, 23/09 - Longo período de presença. Compreensão de um fato: O primeiro ensinamento de Buda foi sobre as quatro nobres verdades, e o segundo foi sobre o nobre caminho óctuplo. As quatro nobres verdades são lógicas e racionais, mas o nobre caminho óctuplo precisa ser seguido com a mente emocional. É a emoção que transforma nossa visão, nossa fala, nossa ação no mundo. É a emoção que senta para meditar e é a emoção que alcança a Sabedoria. A mente racional serve para entender e orientar esse caminho, mas é a emoção que efetivamente o trilha.
# Quarta, 24/09 - Bastante turbulento, mas alguns períodos de presença.
segunda-feira, 8 de setembro de 2025
21 semanas - #2 - Shamata Impura
Sentado em meditação, observo um ponto fixo à minha frente e mantenho a atenção nele. Observo minha respiração, observo a mente se debatendo e retorno a atenção ao ponto fixo, o tempo todo. Chamamos essa prática de Shamata Impura porque ela possui um objeto fixo e externo de foco. Normalmente, após alguns minutos, toda a imagem que vemos fica borrada e o único ponto nítido é o nosso objeto de foco.
#segunda feira 08/09/25: recordo os votos da motivação. Grande dificuldade em manter a atenção fixa em um único ponto. A mente tenta, de todas as formas, sair dessa armadilha. Lembra de coisas a fazer, textos a escrever, contas a pagar, coisas a falar. Não tendo saída, ela provoca sono, divagações e sonhos. Retorno para o presente, incessantemente. Nenhum samadhi ou momento de plena atenção.
#terça-feira 09/09/25: 1 minuto recordando a motivação. Mais facilidade para manter a atenção. Diversos, rápidos e recorrentes momentos de primeiro nível de samadhi. Mente ainda bastante agitada, porém apenas um episódio rápido de sonolência.
#quarta-feira 10/09/25: 1 minuto de motivação. Samadhi mais estável e com mais disciplina. Consigo ter consciência nos momentos em que estou sonolento ou divagando. Mente mais calma e menos agitada.
#quinta-feira 11/09/25: 30" motivação. Mente um pouco mais agitada devido ao avançado da hora da meditação. Mesmo assim, pelo menos três momentos de samadhi nível 1 perfeitos, durando cerca de dez segundos cada.
#sexta-feira 12/09/25: refúgio e motivação. Bastante sonolência por ter dormido pouco. Vários períodos de samadhi nível 1, sendo o último bem longo.
21 semanas - #1 - Motivação
Assim, tenho mais tempo para aprofundar a compreensão em cada um dos itens abordados.
A primeira semana teve como tema a MOTIVAÇÃO.
Eu iniciei com a motivação que eu tinha: me tornar uma pessoa melhor e ver as coisas com maior clareza.
Entendi que não era suficiente. Eu precisava incluir o resto do mundo nessa motivação, senão ela seria fraca e não me levaria muito longe.
Terminei entendendo que minha motivação para a prática é:
"Praticar para parar de prejudicar os seres, para beneficiar todos os seres, para ter maior controle sobre minha mente e assim ter os meios hábeis para saber a melhor forma de fazer tudo isso".
Dá pra resumir mas, em suma, é isso.
Daqui em diante continuo com o programa. O próximo item é a Shamata Impura.
sexta-feira, 5 de setembro de 2025
Decifrando a mente #1: os cinco sentidos
Nos últimos noventa dias, tenho observado a minha mente em detalhes, tentando organizar as coisas e entender o funcionamento da mente. Acabei fazendo um mapa mental bem interessante, que começa com os sentidos, passa para as percepções, para a formação mental e, por último, para a consciência. Na formação mental, percebi a existência de um departamento de respostas automáticas, gerenciado por um gerente lógico e outro gerente emocional, incluindo vários outros elementos como memória, energia, macaco louco, projetor, narrador, tela mental etc. Entendi que essa descrição coincidia em vários elementos com os cinco Skandhas, já estudado exaustivamente há milhares de anos pelos filósofos da India. O budismo incorporou os cinco Skandhas por entendê-los como verdadeiros, e minha própria experiência também levou ao mesmo entendimento:
Forma: o seu corpo não é você. Ele é impermanente, muda o tempo todo e é parte de tudo o que existe a seu redor. Seu corpo é apenas um amontoado de moléculas, organizadas em células, cada uma com uma função, e em lugar algum de seu corpo é possível encontrar um único átomo que seja "você". Nenhuma forma é real, sólida e permanente. Uma árvore não é uma árvore, é um conjunto de infinitas coisas que chamamos de árvore.
Sentidos: Visão, audição, olfato, paladar, tato. Olhos, ouvidos, nariz, língua e corpo. São as "portas de entrada das percepções". Não são você, são apenas impressões impermanentes e limitadas do mundo a seu redor.
Percepções: A projeção que sua mente coloca sobre as impressões captadas pelos sentidos. É impermanete, mutável e depende dos estados mentais que estão atuando em cada momento.
Formações Mentais: Seus pensamentos são impermanentes e dependem dos mapas mentais que estão atuando, das suas referências, memórias, energias, contextos, enfim, a sua mente cria e modifica as formações mentais o tempo todo e elas não são você.
Consciência: Ela é impermanente, depende de seus conhecimentos, da sua atenção e no que você está focado no momento. Quando você está inconsciente, ainda assim continua vivo, portanto, sua consciência não é você
O estudo que fiz da minha mente não levou inicialmente em consideração essa descrição dos cinco skandhas. Na verdade, eu havia esquecido deles e, só depois de fazer o desenho abaixo é que fui estudar melhor e perceber a semelhança. Esse é o mapa que fiz desse estudo:
terça-feira, 2 de setembro de 2025
Atravessando o deserto
No começo de todos os caminhos, tudo é novidade. Tudo brilha. Tudo é possível. Você faz as práticas e elas vão dando resultados. Você enxerga as coisas mais coloridas e com mais realidade. Você se empolga e começa a praticar mais, buscando cada vez melhores resultados. Mas aí chega o Grande Deserto.
Nesse período, parece que nada acontece. Não há mais insights, samadhis, tudo fica mais difícil. A prática passa a não ter mais sentido. Tudo fica cinza e insosso. Tudo é terrivelmente normal.
Esse período pode durar anos ou até uma vida inteira. A pessoa abandona a prática. Não tem mais motivo para se privar dos prazeres da vida. A iluminação é impossível, não tem por que abandonar a vida comum. Não há nada a se alcançar.
Mas, em determinado momento, o praticante se dá conta de que está no Grande Deserto. Se recorda de como era bom ter aqueles pequenos insights e enxergar a vida de uma forma mais colorida e nítida. Então, ele volta a praticar.
E, como por mágica, todas aquelas sensações voltam. As coisas começam a se conectar, o praticante consegue entender melhor o caminho, pois passou bastante tempo e ele conseguiu entender isoladamente cada prática, e agora ele entende como tudo se conecta. Agora ele sabe até onde o caminho leva.
Pode parecer estranho, mas o caminho não leva a lugar algum. Não há ganho, nem perda. Não há benefício, nem malefício. Não há iluminação, nem não-iluminação. Não há nada a ser alcançado, nenhuma realização, nenhum poder mágico a ser adquirido. Não há alguém a ser iluminado.
Buda poderia ter começado seus ensinamentos explicando os 12 Elos, ou a Roda da Vida, com os Seis Reinos e os Três Venenos, ou descrevendo o Nirvana. É o cerne do budismo. Mas não, ele começou explicando as Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho Óctuplo. Não foi por acaso, pois a Roda da Vida está na Segunda Nobre Verdade, o Nirvana está na Terceira e o Nobre Caminho Óctuplo na Quarta. Está tudo ali, conectado. Tudo faz sentido e, de qualquer ângulo que se observe, todos os ensinamentos sempre, sem exceção, apontam para a Natureza Última. Optar por começar a ensinar pelas Quatro Nobres Verdades foi uma decisão brilhante e didática, pois todos conseguiriam entender. Afinal, todos estão sujeitos a Dukkha e entendem o que é o sofrimento.
Os 12 Elos descrevem como são criadas as identidades (javali, galo e cobra, os 3 venenos) que levam a Dukkha. O primeiro elo é Avidya, ou seja, a perda da visão, a perda da Mente Buda. É nesse momento que nasce o javali, que vai dar origem a todo o resto. É nesse momento que criamos as bolhas de realidade, as identidades, os egos, as ilusões. Da ilusão vem o apego a tudo o que sustenta essa identidade (o galo) e a aversão a tudo o que desafia ou nega essa identidade (a cobra). O caminho budista é simples: abandonar Avidya e retornar a Vidya (visão), a Mente Buda. Simples assim, mas astronomicamente distante de ser fácil, pois não queremos de jeito algum abandonar nossas identidades.
Quando atravessamos o Grande Deserto e entendemos como tudo se conecta, tudo passa a fazer sentido. Podemos ver claramente o caminho e até onde ele leva. Sabemos que não há ganho algum no final, pois não há identidade a ganhar alguma coisa. Mas sabemos que, despertos na Mente Buda, estaremos evitando provocar qualquer dano ou malefício a nenhum ser vivo, teremos consciência e meios hábeis para beneficiar o máximo possível de seres e teremos domínio sobre a nossa mente.
Nenhum título honorário por isso. Nenhum reconhecimento. Nenhum prêmio. Apenas a clareza de saber como fazer o bem, evitar o mal e dominar o cabeção. O despertar não é individual, pois não há indivíduo a ficar desperto. Não é a mente nem a identidade criada pela mente que desperta. É a Mente Buda, juntamente com todos os seres e tudo o que existe no Universo. Ninguém desperta sozinho. Não há iluminação sozinho. É por isso que a primeira das quatro qualidades incomensuráveis é justamente o amor. O amor traz a compaixão, que traz a alegria, que traz a equanimidade. Sem amor, sem compaixão, o caminho nem começa.
E o caminho só começa de verdade depois do Grande Deserto. É nesse período que encontramos a motivação, o primeiro passo do caminho. Só depois de entender que não há uma identidade que possa alcançar a iluminação sozinha, que todos os seres possuem (e são) a Natureza Última, que os seres estão deludidos e que precisamos abandonar as identidades para poder despertar a Mente Buda, para então poder parar de prejudicar e poder ajudar todos os seres a também alcançarem juntos o Despertar, só então é que temos a motivação correta e podemos dar o segundo passo.
Podemos entender racionalmente essa motivação, mas ela só vai fazer sentido mesmo quando a contemplarmos, quando a compreendermos e a realizarmos totalmente. Daí em diante, o caminho se torna possível. Sem a motivação correta, sem amor e compaixão por todos os seres, não há caminho e, portanto, não se chega a lugar algum. Há apenas a perda de tempo, o balançar de um entendimento a outro, poucos avanços e muitos retrocessos. Um caminhar em círculos. Depois da motivação correta, tudo o que existe é o caminho. Todos passam a ser professores do Dharma. Há uma outra energia interna que passa a nos mover, e ela não vem do ego, nem da mente, ela é outra coisa, é uma energia luminosa que cria as realidades de forma pura. Essa energia é vazia de identidades e vai se manifestando em cada passo que damos e aprendemos a nos mover com ela.
É nesse momento que compreendemos o PrajnaParamita: As coisas são, mas não são como achamos que são. Elas apenas são. Não há identidades nas coisas como elas são. Há apenas a vacuidade e essa vacuidade é luminosa. Você não está vendo as palavras que estão escritas aqui. Você está vendo pixels. Mas a sua mente capta esses pixels, projeta uma realidade em cima deles e transforma em letras, em palavras, que então você consegue entender. Mas não há palavra nenhuma aqui. Os pixels são livres das palavras, das formas e do conteúdo. Só há espaço vazio, mas a sua mente acha que tem um texto escrito, e consegue ler, e consegue entender. Mas se os mesmos pixels fossem arranjados em hieróglifos egípcios, talvez você não entendesse nada. É a luminosidade da sua mente que consegue dar significado ao que está escrito aqui. E se outra pessoa ler o mesmo texto, vai entender outra coisa, um pouco diferente do que você entendeu, pois ela tem outros referenciais, outras memórias, outras bases de entendimento e outras opiniões.
E, assim, todo o caminho budista passa a ter um sentido diferente do que achávamos lá no início.
Eu comecei a me interessar pelo budismo lendo os livros do Lobsang Rampa, lá pelos 16 anos. Não tinha nada a ver com budismo de verdade, era mais uma espécie de guia para despertar poderes sobrenaturais, uma historinha bonitinha para boi dormir, mas era o referencial que eu tinha na época. Comecei a estudar o budismo de verdade somente a partir de 2006, há 19 anos. Pratiquei metade do tempo no Zen japonês e a outra metade no CEBB, de tradição tibetana. Mas só agora, em 2025, com 54 anos, fui realmente entender o caminho.
Antes tarde do que mais tarde.
Se você também está atravessando o Grande Deserto neste momento, não desista. Continue praticando, com menos intensidade, apenas alguns minutos por dia, apenas um ou dois dias por semana. Mas não pare. Ouça palestras, assista vídeos, mantenha o contato com a sua linhagem de preferência, seja de qual tradição ou religião for. Vai chegar o momento em que você atravessará o Grande Deserto e, então, o verdadeiro caminho irá começar.
Boa sorte.
terça-feira, 14 de maio de 2024
Projeto Highlander
PROJETO HIGHLANDER
O detetive
Um automóvel comum transita por uma estrada rural, completamente deserta, num final de tarde tranquilo. O inverno trazia dias secos e relativamente quentes, enquanto as noites eram gélidas e estreladas.
A porta da cabana se abre com um rangido seco. O detetive Justo Bonfiglio tira seus calçados, coloca os chinelos e começa a guardar as compras em seus devidos lugares.
Justin escolheu morar em uma cabana isolada. Com uma potente internet via satélite e equipamentos adequados, possui toda a tecnologia necessária para fazer seu trabalho sem ser importunado. Depois de um banho quente e de uma refeição saudável, senta-se na frente do computador e começa a ler suas mensagens.
O detetive possui vários perfis falsos que utiliza nas redes sociais, para poder investigar seus casos sem que descubram sua verdadeira identidade. Para evitar enganos, faz disciplinadamente as leituras e postagens de um perfil de cada vez.
Alguns minutos depois, começa a ler seus e-mails. Recebe dezenas, talvez centenas, todos os dias. Mantém uma pasta para cada caso sendo investigado, e vai salvando suas mensagens nas pastas correspondentes.
Porém, em um determinado momento, uma mensagem chama sua atenção. Era um e-mail enviado por uma grande fabricante de medicamentos em nível mundial, o Laboratório X, pedindo para que viesse com urgência em sua sede, informando que as passagens aéreas já estavam pagas e marcadas para o dia seguinte. O e-mail ainda informava que se tratava de um caso importantíssimo e de alto
sigilo, e que a recompensa por aceitar o caso seria certamente muito mais do que gratificante.
Havia um número de telefone na mensagem. Resolveu ligar para confirmar as informações.
Foi atendido por uma secretária. Explicou a situação e foi transferido imediatamente para a diretoria da empresa. O diretor confirmou os dados e reiterou a urgência e importância de sua presença na sede nao dia seguinte.
Justo agradeceu a confiança e confirmou sua presença. Em seguida, terminou de fazer seu trabalho rotineiro e foi descansar.
No dia seguinte, saiu cedo com uma pequena mala e foi para o aeroporto.
A fábrica de medicamentos
Pouco mais de uma hora depois, estava entrando na recepção da referida empresa fabricante de medicamentos. Foi prontamente recebido. Uma pessoa foi designada para apresentar a fábrica, os diversos laboratórios, as salas de controle de endemias, alguns escritórios e, finalmente, foi encaminhado para a presidência.
O sr. Marlon se apresentou como sendo o presidente da companhia e pediu para que Justo entrasse em seu escritório e se sentasse. Ofereceu água e biscoitos. Justo aceitou a água. O sr. Marlon então prosseguiu:
O maior segredo da história
- Sr. Justo, em primeiro lugar, agradeço imensamente por ter aceitado este caso. Tenho certeza que o sr. deve ter muitas dúvidas a respeito, então vamos direto ao assunto. O sr. já ouviu falar do Projeto Highlander?
- Não sr, nunca ouvi falar a respeito. Do que se trata?
- O Projeto Highlander é uma espécie de competição entre as maiores fabricantes de medicamentos do mundo, obviamente incluindo a nossa. O objetivo do projeto é desenvolver um medicamento que permita prolongar a vida humana.
- Prolongar a vida humana? O quanto?
- Pra sempre.
Justo se assombra com a resposta e, perplexo, pergunta:
- E no que, exatamente, eu poderia ajudar vocês?
- Primeiramente, você deve saber que o laboratório que patentear uma droga que prolongue a vida humana indefinidamente, se tornaria o mais poderoso laboratório do mundo. Talvez a maior empresa do mundo, pois este medicamento seria vendido apenas para uma elite bastante restrita, por um preço simplesmente incalculável. Então, entramos em uma corrida para desenvolver esse produto. É algo como o que aconteceu na Guerra Fria entre os EUA e a URSS para ver quem chegava na Lua primeiro.
- Entendi. Mas... como funcionaria essa questão de prolongar indefinidamente a vida?
- Bom, você deve saber que cada célula do corpo humano possui uma programação própria a respeito de sua longevidade. Cada uma de nossas células já sabe quantos anos de vida o corpo irá durar. Ao chegar a velhice, algumas células entendem que não são mais necessárias e "praticam suicídio". O corpo fica mais lento, há mais dores, a pele enruga, o cabelo enfraquece, os hormônios baixam, baixando também o apetite sexual, o vigor físico e a imunidade, abrindo brechas para surgirem as doenças que por fim irão encerrar a vida do indivíduo. Até aqui você entendeu?
- Sim, creio que sim.
- Agora imagine se um medicamento fosse capaz de enganar o DNA da célula, dizendo pra mesma que o indivíduo está permanentemente com trinta anos de idade. O que você acha que iria acontecer?
- Bom, imagino que o nosso corpo não envelheceria.
- Exatamente. Cada célula de nosso corpo imaginaria que o sujeito tem trinta anos, portanto o corpo da pessoa seria mantido permanentemente com trinta anos de idade, em plena saúde, para sempre, desde que continuasse a tomar o medicamento. Está entendendo?
- Hmmm, começo a perceber a importância deste projeto... Mas por que apenas uma certa elite teria acesso ao medicamento?
- Ora, isso é óbvio. Nós não queremos que a humanidade inteira dure para sempre. Para que serviria manter um mendigo vivo eternamente? Isso seria um castigo pra ele, concorda?
- Sim, mas...
- Então não podemos permitir que as pessoas sequer imaginem que estamos desenvolvendo esses medicamentos. Eles seriam vendidos apenas para uma parcela muitíssimo seleta da humanidade. É claro que o preço de venda precisaria compensar o número muito inferior de unidades vendidas. Por isso tudo é que definimos que cada comprimido custaria o preço de uma Ferrari nova, e que ele deve ser tomado mensalmente.
- Um único comprimido custaria o preço de uma Ferrari nova?
- Quanto você pagaria para viver para sempre, se pudesse, e se tivesse todo o dinheiro do mundo?
- Hmmm, é, faz sentido.
- Para compensar a baixa produção, precisamos cobrar muito caro a venda de cada unidade. se não, não compensaria sua produção, concorda?
- Certamente. Mas ainda não entendi no que posso ser útil.
- Pense um pouco. Tente adivinhar o que está acontecendo.
- Bom, se várias empresas gigantes estão disputando para ver quem patenteia primeiro o comprimido que garante vida eterna, então deve estar havendo algo como uma espionagem industrial. É isso?
- Exatamente! Vejo que você é esperto. Estamos sendo vítimas de espionagem industrial. Mas o caso é muito mais grave que isso. Uma empresa concorrente contratou um espião, que se infiltrou em nosso quadro funcional e conseguiu roubar uma série de informações de altíssimo sigilo. Informações que não poderiam cair em mãos inimigas em hipótese alguma.
- Entendi. E o que aconteceu?
- Esse espião conseguiu copiar todos os arquivos referentes à produção do medicamento, mas agora está negociando com as duas partes e pedindo uma soma assombrosa para não entregar para a concorrência. Está fazendo jogo duplo e, de um jeito ou de outro, vai sair ganhando um dinheiro inimaginável.
- E querem que eu descubra onde está essa pessoa, é isso?
- Mais do que isso, queremos que você evite de toda forma a possibilidade que esses arquivos venham a ser conhecidos pela nossa concorrência. Não importa se para isso você precise utilizar meios ilícitos e anticonvencionais....
- Você quer dizer, matar o cara?
- Ora, não vamos usar palavras tão agressivas. Mas percebo que você entendeu o recado.
- É, creio ter entendido. Tudo bem, eu topo o caso. Quado começo?
- Já começou. Amanhã esteja aqui às sete da manhã.
A caça
Justo vai à caça do espião, contando para isso com as últimas mensagens recebidas, de arquivos do setor de recursos humanos da empresa e de algumas mensagens trocadas com a diretoria. Pediu para analisar tudo isso em sua própria casa, local onde teria a melhor estrutura para executar o trabalho.
Passou alguns dias rastreando cada passo do suspeito. Entendeu como ele trocava de identidade e local com grande facilidade, apagando seus rastros e tornando sua identificação praticamente impossível. As mensagens eram enviadas de lan-houses com perfis recém criados e os telefonemas eram dados em telefones públicos, cada vez em um lugar diferente do país.
- Com tanto dinheiro envolvido, ele pode fazer isso pro resto da vida...
Justo começou a cruzar as informações e percebeu alguns padrões de comportamento. O grande defeito dos espiões é sempre deixar uma "assinatura" em seus métodos, algum tipo de padrão bastante sutil e de difícil interpretação. No caso, este espião estava indo de uma cidade para outra.... em ordem alfabética!
- Anandeua, Botucatu, Campo Largo, Diamantina, Esplanada, Florianópolis, Guarani... não repete nenhuma letra, nem pula nenhuma. Também sempre muda de estado. Então, qual seria a próxima?
Levantou todas as cidades com nomes que começam por H. Encontrou 21, sendo que três ficavam em Goiás, portanto restariam dezoito. Seis delas ficavam no Rio Grande do Sul, três em são Paulo, duas no Ceará e o restante uma em cada estado. Então, qual estado seria o escolhido?
Verificou que o espião estava sempre escolhendo o estado com o maior número de municípios com a letra escolhida. Portanto, a próxima seria certamente no Rio Grande do Sul. Mas qual?
Com relação ao tamanho da cidade, também havia um padrão: uma pequena, uma grande, uma pequena, uma grande. Então, como Guarani é uma pequena cidade no interior de Minas Gerais, então a próxima seria uma cidade grande. Bom, de todas as seis cidades do Rio Grande do Sul que começam com H, a maior é Horizontina. Uma pacata cidade com cerca de vinte mil pessoas no extremo norte do estado. Não é uma grande cidade, mas é a maior das listadas.
Não valia a pena pegar avião para chegar a Horizontina. Era mais fácil e rápido ir de carro. Em meia hora, já estava na estrada e em quatro horas estava chegando em Horizontina. Agora, precisaria localizar uma lan house. Tarefa fácil, pois no centro da cidade só haviam duas, e ambas com pouco movimento. E próximas. Do quarto do hotel, deixou uma câmera filmando a entrada de uma das lan-houses. Enquanto isso, desceu na praça e ocultou outra câmera, voltada para a outra lan house. Ficou ali, observando discretamente quem entrava e quem saía dos estabelecimentos.
Também prestava atenção nas placas dos carros, procurando especialmente alguma coisa suspeita. Duas horas se passaram sem qualquer identificação de possível suspeito. Começou a caminhar pelos carros estacionados e percebeu um com placa de Chapecó (a mais próxima cidade com aeroporto) e um adesivo de identificação de aluguel de veículos. Era um carro alugado.
Só poderia ser este.
Ficou a uma distância segura e colocou uma terceira câmera oculta, filmando o carro. Nisso, recebe pelo celular uma mensagem do Marlon, informando que acabara de receber um e-mail do sujeito. Rapidamente, vai até o veículo suspeito e fixa nele um detector GPS. Mantém uma certa distância enquanto observa. Um rapaz jovem, de óculos escuros, entra no veículo, confere seu celular e arranca em direção à saída da cidade. Justo entra imediatamente em seu veículo e começa uma perseguição à distância. Enquanto isso, coloca no computador de bordo o sinal do GPS rastreado e as imagens das câmeras ocultas. Consegue tirar uma foto do rosto do suspeito e envia para Marlon para identificação.
- Por acaso esse sujeito aí parece com alguém que trabalha ou trabalhou recentemente na empresa?
- Vou verificar e já retorno.
Em questão de dez minutos, Marlon liga, avisando:
- Sim, temos um funcionário em férias que se parece muito com esse sujeito.
- Qual era o setor dele?
- Limpeza.
- Claro, o pessoal da limpeza tem acesso a toda a fábrica. Muito astuto da parte dele. Quando ele foi contratado?
- Há dois anos. Um ano depois do início do Projeto Highlander.
- Provavelmente todos os dados que vocês têm dele são falsos. Mas vocês têm as digitais dele?
- Hm, deixa ver.... não, não temos não... peraí... algumas salas só permitem acesso biométrico, então pode ser que ele tenha cadastrado sua digital lá, né?
- Brilhante, sr. Marlon.
- Vou pedir para a area técnica verificar.
Enquanto isso, Justo continuava seguindo o veículo à distância. Já haviam atravessado a fronteira estadual e já estavam em terras catarinenses. O celular toca novamente.
- Justo, é o Marlon. Conseguimos a digital do suspeito. Já encaminhei para um amigo meu da polícia federal para tentar identificar.
- Perfeito, Marlon, era justamente isso que eu iria fazer. Estamos nos aproximando de Chapecó. Como é tarde, provavelmente o suspeito vai dormir em algum lugar e amanhã irá para uma cidade que começa com I. Como deve ter umas trezentas cidades que começam com I, precisamos agir rápido.
- Lembre-se que você tem carta branca para fazer o que for necessário. Tente fazer parecer um acidente.
Neste momento, Justo tem um insight e lembra-se de uma cena do filme O Poderoso Chefão. Lembra-se da máfia italiana. E se deu conta de tudo o que estava envolvido e acontecendo. Entendeu com clareza o papel que cada um desempenhava nesse jogo sinistro. Entendeu as regras do jogo.
A situação era complicadíssima: Um laboratório estava desenvolvendo um comprimido capaz de manter uma pessoa eternamente jovem. Por isso o nome Projeto Highlander. Imagine o poder econômico de um laboratório que vende cada comprimido ao preço de uma Ferrari. Claro que somente uma elite muitíssimo restrita teria acesso a esses medicamentos. Quem poderia comprar uma Ferrari por mês? Havia uma outra questão: se todas as pessoas pudessem viver para sempre, a população humana na Terra iria disparar em progressão geométrica, tornando o planeta inabitável em poucos anos. Seria o caos absoluto. Certamente os laboratórios tinham esta clareza, e certamente iriam vender o medicamento a um preço tão alto que somente os mais ricos poderiam comprar. Esse medicamento não poderia ser fabricado em grande escala, senão seria o fim da humanidade. Mas como garantir que a concorrente tivesse esta clareza? E se a concorrente estivesse pouco se lixando pra explosão demográfica e se preocupasse apenas em ficar podre de rica? E se a história contada por Marlon não fosse exatamente do jeito como ele tinha contado? E se...
Justo entendeu o que realmente estava acontecendo.
O espião havia entrado em um posto de gasolina e entrou na conveniência. Justo estacionou seu carro atrás. Ainda estava esperando a identificação do suspeito, mas achou que agora, tanto faz a identidade do espião. Eles precisavam conversar.
O espião estava sentado a uma mesa, fazendo um lanche. Justo serve-se de um salgado, pede licença e senta junto com ele.
- Olá, meu nome é Justo, e o seu?
- Roberto - responde sem dar atenção.
- Sr. Roberto, ou seja qual for seu nome de verdade, você já ouviu falar do Projeto Highlander?
O espião para de comer e fica imóvel por alguns segundos. Tira os óculos escuros e olha diretamente para Justo.
- Não tenho certeza. Por que a pergunta?
- Sr. Roberto, eu fui enviado pelo Laboratório X para evitar a qualquer custo que o segredo industrial mais caro do mundo seja vendido para a concorrente que lhe contratou.
O espião fica imóvel alguns segundos e pede:
- Como é que é? Explica isso direito que eu acho que tem um grande mal entendido nessa história.
- Eu também acho que tem. O laboratório X, a maior fabricante de medicamentos do mundo, me contratou porque supostamente você se infiltrou no quadro funcional para roubar um segredo industrial, a fórmula do comprimido da vida eterna, e supostamente você iria vender essa fórmula para o laboratório Y, ou para quem lhe pagasse mais. Não estou bem certo que esta seja realmente a verdade dos fatos. Isso procede ou não?
- Em primeiro lugar, quem é você?
- Meu nome é Justo. Sou detetive especializado em rastrear pessoas usando alta tecnologia.
- Ah, isso faz todo o sentido. Ok, percebo que você está com boa intenção e deve ter percebido que a história não foi exatamente como lhe contaram. Muito bem, deixa eu lhe esclarecer então.
Roberto toma um gole de café e prossegue:
- Em primeiro lugar, meu nome verdadeiro é Raul. Sou especialista em fraude de identidade. Fui contratado pelo Marlon para roubar a fórmula desenvolvida pelo laboratório Y. Ou seja, é o contrário do que ele está falando. Eu me infiltrei no laboratório Y usando documentos falsos. Trabalhei por dois anos no laboratório Y e finalmente consegui roubar a fórmula. Estou com ela em mãos, mas é óbvio que tenho cópias. Também sou hacker. Eu criei um sistema, no qual devo entrar todos os dias e digitar uma senha. Se errar a senha duas vezes ou se não entrar por dois dias seguidos, o sistema irá disparar um e-mail enviando a fórmula para todos os laboratórios que estão competindo no Projeto Highlander. Entendeu?
- Quer dizer, você criou uma forma de garantir que ninguém o mate, é isso?
- É. E todos os laboratórios sabem disso. Então por que o Marlon, mesmo sabendo disso, ordenou que você me mate?
- Hm, isso realmente não faz muito sentido.
- Claro que faz. Pense bem: seria uma fantástica queima de arquivo. Você me mata, ele recebe a fórmula por e-mail, e não me paga a fortuna que estou cobrando por fazer esse trabalho. Dane-se se os outros vão receber a fórmula também. O laboratório X é o maior do mundo, ele iria lançar o produto primeiro, fabricar em grande escala e não daria espaço para os concorrentes. Simples assim. Entendeu agora?
- Realmente faz todo o sentido. Mas o que faremos agora então?
- Você teve acesso aos e-mails que eu mandei para o Marlon?
- Não. Apenas algumas mensagens. Ele apenas me falou quais foram as cidades de onde eles foram enviados.
- Então você não leu nadinha nadinha do que eu escrevi?
- Não.
- Vem cá. Leia você mesmo os originais:
Raul mostra os e-mails originais em seu smartphone, e Justo compreende que Raul estava falando a verdade. Mas era muito mais do que isso. Havia uma verdadeira conspiração por trás da fabricação desse medicamento. Um grupo de pessoas que queria viver eternamente e manipular a economia, a política, a religião, as informações, enfim, tudo. E para sempre. Um mesmo grupo de pessoas por trás dos bastidores, comandando toda a humanidade.
- Isso é inacreditável. Então esse medicamento foi fabricado por ENCOMENDA?
- Exato. As duzentas pessoas mais poderosas do mundo estão financiando a fabricação deste medicamento, para poderem se manter no poder - e podres de ricas - por toda a eternidade. Na verdade, elas e seus familiares próximos.
- Nesse caso, esse medicamento não é uma bênção, mas uma maldição.
- Exatamente. É por isso que estou me recusando a entregar a fórmula. E fui mais longe ainda: eu consegui apagar a fórmula dos computadores do laboratório Y.
- Ou seja....
- Só EU, no mundo inteiro, tenho essa fórmula agora. Entende por que estão me perseguindo desesperadamente?
- Mas eles podem desenvolver de novo...
- Podem. Mas eu é que não vou facilitar o trabalho deles.
- Então é por isso que você está mudando de cidade cada dia.
- Claro. Se eu parar dois dias no mesmo lugar eles me encontram e me matam. Você foi o primeiro que conseguiu me encontrar, mas graças a Deus foi inteligente o suficiente para perceber que estava sendo usado por eles.
- E o que faremos agora?
A decisão
- No estágio em que as coisas estão, não há volta. Esqueça sua vida anterior. Ela não existe mais. Agora você precisa fugir e se esconder, como eu.
- E por que não destruímos a fórmula?
Raul para e pensa um pouco. E responde:
- Eu tenho a fórmula como um trunfo. Ela está guardada em um local onde jamais vão descobri-la, e criptografada de tal jeito que jamais vão conseguir descriptografar. A bem da verdade, a única forma de conseguir a fórmula é me matando mesmo, pois assim todos recebem a fórmula por e-mail. Bom, vamos rever isso e usar a nosso favor. Que tal?
- Excelente ideia. Veja, fazemos uma dupla que se completa: você é especialista em fraude de identidade e eu sou especialista em rastrear pessoas. Eu garanto nossa segurança, rastreando ameaças, enquato você nos mantém anônimos. E juntos vamos sempre tentar sabotar o plano deles, que tal?
- Muito bem, mas como vamos viver? Comendo a fórmula?
- Você não é hacker?
Raul pensa um pouco.
- É, sou... Mas não pensei em fazer disso uma fonte vitalícia de renda.
- Mesmo se a conta bancária hackeada fosse a dos laboratórios? Ou melhor ainda, dos duzentos aqueles que estão financiando as pesquisas?
- Hmm... é. Fechou. Combinado. E pra onde vamos agora?
- Bom, seguindo a sua lógica, a próxima cidade seria com I agora, né?
- Ah, então foi assim que você me encontrou... parabéns, seguiu corretamente meu pensamento. Você explicou esse padrão pro Marlon?
- Bah, infelizmente sim.
- Então é óbvio que precisamos mudar de padrão.
Justo pensa um pouco:
- Que tal irmos morar em uma ilha deserta?
- Romântico demais. Desculpe mas você não faz exatamente meu tipo. Não é o tipo de pessoa que eu gostaria de viver o resto da vida sozinho numa ilha.
- E se a gente for morar no meio do mato, numa comunidade alternativa, sem acesso a nada, completamente fora do sistema?
- Hmmm.... Assim já melhorou. Alguma sugestão?
- Ao invés de letras, podemos usar números...
- Deixa eu fazer uma pesquisa aqui. Hmmm... que tal a comunidade hare krishna de três corações?
- Perfeito!
- Olha só, já devem ter me rastreado neste momento, já devem saber em qual hotel estou hospedado e vão localizar o meu carro. Você foi com o seu carro no laboratório?
- Sim, por que?
- Então já sabem a placa dele também. Vamos pegar um ônibus. Esperam que a gente chegue em Chapecó, mas vamos dormir em Xanxerê e amanhã seguimos viagem, combinado?
- Combinado.
Três dias depois, dois hare-krishnas de cabeça raspada, com suas togas e incensos, desciam de um ônibus em Três Corações.
Foram recebidos pelo líder da comunidade e iniciaram seus longos retiros de três anos, fechados em eremitérios individuais.
Seus nomes civis? Ninguém sabe. Apenas os nomes espirituais: Hac Ker Das e Ras Treia Das.













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