Sobre um zafu
Diário de um praticante de meditação
quarta-feira, 8 de abril de 2026
O grande antídoto
terça-feira, 14 de outubro de 2025
21 semanas #6 - Shamata pura na vacuidade
Após já termos praticado Shamata pura e também ter meditado sobre o Prajnaparamita, nesta semana vamos fazer as duas coisas juntas: estar presentes na vacuidade.
#14/10, terça feira: entrando rapidamente em estado de presença, também rapidamente percebemos a vacuidade de todas as identidades e fenômenos. Após contemplar por alguns minutos, surge a dúvida: é a mente que cria o vazio ou é do vazio que surge a mente?
segunda-feira, 6 de outubro de 2025
Decifrando a mente #10 - os mapas mentais
Os mapas mentais funcionam a partir de uma identidade. Temos infinitas identidades que procuram rotular "eu sou isso" ou "eu sou aquilo". As identidades são como infinitos reis que mandam em um castelo, mas o castelo só tem um trono e os reis se sucedem infinitamente para ocupar o lugar de comando. Assim que senta no trono, a identidade busca se solidificar, atraindo coisas que a sustentem, divulgando a todos as suas incríveis qualidades, afastando todas as ameaças a seu poder e combatendo todos aqueles que a contrariem.
Como todos os reis, cada identidade possui seus mensageiros que vão comunicar a todos os ditames do imperador, bem como exaltar e divulgar sua inegável majestade. Também possui um conselho de sábios que vão trazer informações e um séquito de operários que construirão monumentos para mostrar para todos os povos do planeta a sua magnificência. É claro que também terá um exército muito hábil em defender o seu reino e caçar a todos que possam representar alguma ameaça.
Mas cada identidade permanece no trono de comando apenas por muito pouco tempo. Logo são substituídas por outra identidade, com seus próprios atributos, qualidades, medos e raivas, conselheiros, séquitos e exércitos.
Eu gosto de pensar nessa alegoria dos milhares de reis que moram em um castelo com apenas um trono. Acho mais fácil de entender do que o javali, o galo e a cobra usados por Buda para descrever a mesma coisa: as bolhas de realidade. São apenas alegorias diferentes, mas o significado é o mesmo.
As bolhas de realidade são recortes toscos e distorcidos da realidade que nos cerca. O tempo todo, vemos apenas um aspecto bastante limitado e obtuso da realidade, totalmente influenciado pelos referenciais e pela identidade do rei que está no trono, ou pelo javali.
Mas os mapas mentais não são constituídos apenas pelas bolhas de realidade. Eles também dependem do estado emocional vigente, ou melhor, da paisagem mental em que estamos operando no momento. Buda descreveu essa paisagem mental usando a alegoria dos seis reinos: Reino dos deuses, dos semi-deuses, dos humanos, dos animais, dos seres famintos e dos infernos. Particularmente, não consegui imaginar uma descrição melhor, então vou manter essa mesma.
As características dos seis reinos é amplamente abordada em uma vasta literatura e acho desnecessário tentar explicar algo que tem tanta bibliografia a respeito. Basta dar uma pequena pesquisada em qualquer fonte minimamente confiável.
Então concluímos que o mapa mental vigente é formado pela bolha de realidade e pelo reino em que se encontra a mente em cada instante, incluindo ainda fatores como a energia disponível e a motivação. Tudo isso junto vai definir o óculos com o qual cada ator vai olhar para aquilo que está sendo percebido ou pensado no momento. A cor do óculos vai indicar qual a carta que cada estagiário vai escolher para responder ao estímulo que a mente está recebendo, por exemplo.
Mas quem controla os mapas mentais? Qual o ator que comanda essa parte da mente que define o que deve ser feito por todo mundo? Quem é o comandante do setor mais importante da mente?
Em um primeiro momento, pensei que era a consciência, pois ela tem o poder de mudar o mapa quando desejar. Mas ela também é influenciada. Se ela não agir ativamente por vontade própria, vai seguir o roteiro do mapa atual passivamente. Então há outro ator que comanda o mapa mental, mas ainda não sei identificar quem é.
Buda representa esse ator como sendo Maharaji, uma manifestação de Mara. É ele que comanda a roda da vida, mudando os reinos onde estamos e trazendo as bolhas de realidade para o trono. Como não consigo imaginar outra resposta melhor no momento, vou manter essa mesma alegoria. Mara é o rei do Samsara, é ele que cria Dukkha e Maharaji é a parte dele que comanda a nossa mente, se não estivermos conscientes.
Então, na falta de um entendimento melhor, concluímos que Maharaji é quem define os mapas mentais que influenciarão todas as decisões tomadas pela nossa mente. A seguir, veremos um aspecto que não é abordado nos cinco skandas: as respostas de corpo, fala e mente.
21 semanas #5 - Prajnaparamita
O mantra do prajnaparamita sugere que estamos em uma margem e precisamos atravessar para a outra margem. Por isso a alegoria de um barco. Nesta margem, vemos as coisas com a projeção da nossa mente: casas, árvores, automóveis, pessoas, montanhas. Tudo parece ser normal. Durante a travessia, vamos percebendo que tudo isso é criado em nossa mente a partir de um vazio luminoso. Ao chegarmos do outro lado, entendemos que tudo o que existe é vacuidade. Atravessamos completamente e repousamos na vacuidade. É isso que quer dizer o mantra: GATE GATE PARAGATE PARASAMGATE BODHI SWAHA.
Uma árvore não é uma árvore. É um conjunto de incontáveis coisas que formam aquilo que nossa mente rotula como árvore. E mesmo cada um de seus componentes, em si, não são esses componentes. Eles também são vacuidade, eles também não possuem uma identidade. Nada que vemos ao nosso redor é como pensamos que é.
Um edredom dobrado em cima da cama não é um edredom. É um amontoado de fiapos trançados e costurados com um recheio de fibras. Se olharmos no microscópio, não existe edredom em lugar algum. Nem as fibras, nem os fiapos. Só há vazio, algumas moléculas que se conectam com outras de uma forma ligeiramente organizada, sendo que seu conjunto completo cria uma forma que nossa mente, de acordo com seus referenciais, interpreta como "edredom". Então, aquele edredom não é um edredom. Não existe edredom, mas a nossa mente cria a ideia de um edredom a partir do vazio luminoso onde opera e a projeta sobre aquilo que nossos olhos estão vendo. O edredom só existe na nossa mente. Para uma traça, aquilo não é um edredom, é comida, porque os referenciais da traça são outros. Para um pássaro, é uma fonte de material para se fazer um ninho. Para um cão, é um brinquedo pronto para ser destruído. No momento em que nossa mente enxerga o edredom, ela deixa de ser capaz de ver o vazio luminoso que há por trás dele. O prajnaparamita é a sabedoria que nos permite perceber a vacuidade em tudo o que existe. Forma é vazio, vazio é forma, nada mais.
#06/10/25, segunda feira: refúgio, linhagem, motivação, shamata, methabavana. Cinco minutos observando o edredom à minha frente e mais cinco minutos contemplando. A compreensão do prajnaparamita ainda está em um nível bastante racional, apesar de presente durante todos os dias, quase o tempo todo.
#07/10/25, terça feira: voltei o prajnaparamita para mim mesmo. Eu sou apenas uma construção da minha mente. Um amontoado de células que acredita ser alguém ou alguma coisa. Um corpo vivo que pensa ter uma identidade.
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
Decifrando a mente #9 - energia
Decifrando a mente #8 - o fracassado
Decifrando a mente #7 - a tela mental
A tela mental é bastante complexa. Ela pode até criar cenários incríveis, em 3D e coloridos, como em nossos sonhos lúcidos, que podem ser tão reais que não conseguimos distinguir se estamos sonhando ou se estamos acordados. Ela é usada pelo macaco louco, pelos gerentes e até pelos estagiários do piloto automático. Também é usada pela nossa consciência e está sendo usada agora, nesse momento, enquanto você lê esse texto, pois se eu sugerir: "imagine um gramado bem verde com árvores e o mar ao fundo", você provavelmente deve ter criado e projetado essa cena em sua tela mental.
Nossa mente se retroalimenta daquilo que é projetado na tela mental através das percepções, como já vimos antes. Nós interagimos com essa projeção. Somos capazes de andar dentro dos nossos sonhos e de conversar com pessoas que só existem em nossa mente. As alucinações são distúrbios perceptivos nos quais não conseguimos distinguir se o que estamos vendo é real ou não.
As viagens astrais, sonhos lúcidos ou projeções da consciência, ocorrem integralmente dentro de nossa mente, sendo tão reais e perfeitas que acreditamos firmemente terem sido reais. Nesse ponto precisamos abrir parênteses: Nossa mente é capaz de perceber questões muito sutis, muito além da nossa percepção normal. Somos capazes de acessar informações, memórias e fatos que estão em um nível mais sutil e mais amplo, mas nossa mente tem dificuldade em entender o que está vendo e interpretar de forma correta. Dessa forma, ela cria uma projeção que procura traduzir a informação acessada dentro de alguma alegoria que conseguimos entender, que faça sentido dentro dos nossos referenciais. Então, sonhamos que estamos em uma montanha flutuando, conversando com um sábio em forma de unicórnio que nos diz uma determinada frase que parece conter toda a sabedoria do universo e, conforme vamos acordando, percebemos que nada disso faz realmente muito sentido. A questão é que talvez tenhamos mesmo acessado uma informação sutil muito importante, mas nossa mente criou todo um cenário com elementos que tentam, de alguma forma, materializar aquilo que foi percebido. Isso tudo é jogado como um filme em nossa tela mental e, depois, tentamos lembrar dos detalhes do que foi sonhado, sendo que a maior parte da informação original é perdida, pois parece simplesmente não ter nenhuma lógica.
Podemos também ter sonhos premonitórios: Nossa mente acessa uma área sutil de probabilidades e percebe que algo pode realmente acontecer. Então ela precisa de um agente que traga essa informação, alguém em quem confiamos e que consideramos ser protetores: um pai, uma mãe, um irmão mais velho, um mestre, um guru ou santo. A mente cria todo um cenário, com esse ator, interpretando um personagem nos avisando sobre o que está para acontecer. Esse sonho nos parece tão real que acreditamos realmente que essa pessoa veio até nós, que estamos mesmo falando com espíritos. Mas é tudo criação da mente, mesmo que em cima de algo sutil que realmente venha a acontecer. Aquilo que entendemos como "mediunidade" é justamente isso: acessamos de verdade uma área sutil e nossa mente cria atores e cenários que encenam essa informação.
Ao estudarmos a mente com profundidade, vamos aprendendo a lidar com a tela mental, distinguindo melhor o que é ou não real, o que é ou não pura criação ou interpretação da mente. Vamos nos familiarizando com essa projeção e aprendendo com ela e, em um estágio bem superior, vamos entender que mesmo as projeções que são reais, na verdade, também são criações da nossa mente em cima daquilo que nossos sentidos captam. Por exemplo, quando vemos uma casa, nossa mente projeta essa mesma casa em nossa percepção, usando a tela mental. Mas não estamos realmente vendo AQUELA casa, e sim, uma projeção mental criada em cima daquela casa que nossos olhos estão enxergando. É uma casa, mas não é bem AQUELA casa. É outra coisa, é uma criação mental. Por fim, transcendemos a tela mental e entendemos que, enfim, aquela casa não é uma casa, mas é uma casa, e tudo bem. E nos divertimos com isso. O tempo todo, para tudo o que olharmos, acordados, alucinados ou dormindo.





